terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Matar não é ético
“Não há clemência para os traficantes”; “respeitem as leis do país” declarou o procurador-geral da Indonésia Muhammad Prasetyo, com relação ao fuzilamento do brasileiro Marco Archer Cardoso, após passar mais de uma década no corredor da morte. Ele entra dessa forma sórdida para a História como o primeiro brasileiro apenado por execução. Mas, o que fez o carioca, instrutor de voos de asa delta? Por razões que só lhe diziam respeito, aderiu ao tráfico de drogas internacional. Tentou entrar em Jacarta, Indonésia – que possui leis severíssimas com relação ao tráfico - com uma carga de 13 quilos de cocaína escondidos nos tubos da asa delta, detectado pelo raio X do aeroporto internacional de Jacarta. Preso duas semanas depois, teve ao longo desses 10 anos o “tramite legal do país”, razão pela qual, os pedidos de clemência de Dilma foram desconsiderados por Joko Widdodo, que tem como valor absoluto a “tolerância zero” como política de governo contra o tráfico.
É a “cultura o filtro das “verdades” e da “ética”, do que é “certo” e do que é “errado”. Não se pode universalizar a Cultura; ela é, de fato, sequestrada por valores, crenças, tradições, religiões, ideologias, práticas e costumes de determinado grupo social que lhe vai tecendo e constituindo, ao longo do tempo. Por outro lado, o “entendimento”, ou seja, o acordo absoluto nas argumentações sobre determinado tema, é uma impossibilidade, e, pode, mesmo, ser considerado uma utopia, visto ser, para os esperançosos, o último patamar da racionalidade, ainda está em construção. Sob essa perspectiva, para que se estabeleça o entendimento, inúmeros componentes necessitam estar em consonância de igualdade: os sujeitos que o buscam precisam compartilhar o mesmo ambiente - semiótico-cultural - de situação de fala ideal, onde não estejam subjugados por qualquer tipo de coerção. Além da imprescindibilidade da consideração de que, existindo esse ambiente, esses sujeitos que almejam entender-se devem de fato estar em um consenso na busca da verdade, não cedendo, simplesmente à argumentação do outro, mas, realmente, pelo seu convencimento racional a respeito do que estava sob argumentação, onde todos levam vantagem e evoluem ao encontro da possibilidade do acordo. A votação de uma assembleia nunca representa de fato o resultado do “entendimento” do grupo, mas, o resultado da soma das particularidades de uma maioria que vence. Não há, por tanto, sob esse ponto de vista, possibilidade de resultado consensual.
Não se pode olhar para o outro com os olhos de fora, sem considerar o poder do filtro da fronteira da cultura, que, justamente, não permite que haja culturas colonizadas. Povos, civilizações podem - e o são - ser submetidos e colonizadas, culturas, não! Traços culturais se mesclam, mas, não se misturam. Daí essa mescla cultural em confronto e conflito nos dias atuais. Sob o filtro cultural se justificam ações; mata-se e morre-se.
No ocidente, a imprensa chocada, procura agulha no palheiro que justifique ou condene os “valores” indonésios; levando em consideração a lassidão da justiça com outros tipos de crimes. Por lá, a sentença de morte vem sendo comemorada pelo povo e seu presidente aclamado até entre os universitários: “As execuções dos condenados vai mandar uma mensagem a todos os envolvidos com drogas de que a Indonésia é séria em combater esse crime. Eu espero que as pessoas entendam que estamos tentando salvar a Indonésia dos perigos das drogas”, afirmou o procurador-geral, como porta-voz do povo e da cultura indonésia.
A Ética, contudo, é um valor e um categórico universal, o que é intercambiável culturalmente são a moral e os costumes. Matar não é Ético, mesmo que justificado pelos costumes de determinada cultura. O que o mundo, que precisa caminhar para a busca do entendimento dentro do patamar da Ética - e, que tem como valor universal a preservação da vida a qualquer custo - tem a fazer é continuar argumentando sobre esse direito inalienável. Afinal, apenados que somos com a sentença de morte desde que nascemos, deveríamos refletir em todas as instâncias se cabe ao homem interferir no prazo e na data já determinados por leis e força e poder bem maiores.
Maria Angela Mirault – professora doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
http://mamirault.blogspot.com
Publicado no jornal Correio do Estado, Campo Grande, MS, 22/01/2015
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Em nome de deus
Pobres mortais planetários que ainda não sabemos nada a respeito de Deus. Pobres de entendimento; orgulhosos que somos de nossas próprias verdades. Nosso Deus é sempre o Deus mais verdadeiro do que o dos outros. Nossa crença é sempre a única verdade a ser concebida pelos demais. E, em nome do deus que reverenciamos tudo podemos, e, o irmão deixa de ser o irmão, agora, é o antagonista, o equivocado, aquele que, por não ser como nós, não pensar como nós, principalmente, por não ser cooptado por nós, deve ser eliminado, em nome de nossa concepção de deus. E, incoerentemente, nosso deus precisa de nós para vinga-lo das ofensas e dos perjúrios. É assim que se justifica Karl Marx ao afirmar ser "a religião o ópio do povo” e de que "o caminho do inferno é pavimentado de boas intenções". Só!
Pobres de nós, territorialistas, nacionalistas dementados e apartados por ideologias e cosmovisões diferenciadas, em um mundo que vê ruírem todas as suas fronteiras, com mais de 50 milhões de refugiados, vítimas de guerras e extermínio. Como é confortável justificar o absurdo. Como é fácil para espécie humana odiar.
“Je suis Charlie” e “je ne pas suis Charlie”!
“Je suis Charlie” quando constato que o crime hediondo cometido contra a liberdade de expressão ultrapassou o limite das pranchetas, dos computadores, da redação do hebdomadário Charly Hebdo e foi cobrado, em nome de deus, pela AK 47 de maneira tão banal, tão certeira e tão facilmente disponibilizada pela indústria do genocídio, não apenas, ao radicalismo jihadista.
“Je ne pas suis Charlie” quando observo o desdobrar daquela fria manhã francesa e constato que a mesma liberdade de expressão não é concedida a quem ousa pensar diferente. Será que os líderes que marcharam à frente da multidão significavam mesmo a defesa da “liberté”, da “igualité”, da “fraternité”? Ou, o tempo nos evidenciará que cada um que ali estava expressava a sua concepção de liberdade em sua particularidade, cada qual por seu próprio motivo, seu próprio povo e por sua própria visão de mundo, de ideologia e de seu deus?
Da mesma forma que o mundo livre comemora os 3,7 milhões nas ruas de Paris precisa agora entender aqueles que se declaram - para serem ouvidos - “je ne suis pas Charlie”. A França pode estar capitaneando o braço armado do racismo europeu, a discriminação ideológica, ao não tratar o caso do semanário com a devida contenção e ao tê-lo prostituído politicamente. Líderes políticos e religiosos que marcharam lado a lado de François Hollande – que já colhe frutos em pesquisa de popularidade interna em seu país - estão meio que atônitos com a capa da edição posterior à barbárie, do pasquim, que insiste em retratar Maomé, o irretratável, provocativamente.
É fato que a União Europeia econômica e politicamente já foi pro ralo e que a Europa vem dando sinais evidentes de uma guinada sinistra para o extremismo da eugenia. É bom lembrar que, para essa Europa, somos todos macacos. Na segunda-feira, 6/01, anterior ao extermínio dos chargistas parisienses, 18 mil alemães já haviam ocupado as ruas, em Desdren, liderados pelo grupo político xenófobo Patriotas Europeus contra a islamização da Europa.
Foi monumental a manifestação convocada pelo governo francês. A marcha de Paris tornou-se um ícone mundial de poder, de força política e de relações internacionais francesa, sem dúvida; talvez para o mundo. Mas, a verdadeira mensagem se configurará com o decorrer do tempo porque só os acontecimentos em desdobramento serão capazes de nos traduzir o que aquela multidão nas ruas de Paris estariam, verdadeiramente, dizendo, e, esperando.
PORÉM, NADA, NADA, NADA, JUSTIFICA O CRIME COVARDE DOS IRMÃOS KOUACHI! Contra essa voz do inferno, não só “je suis”, como “je m’appelle Charlie”!
Maria Angela Mirault – professor doutora em comunicação e semiótica pela PUC de São Paulo
http:mamirault.blogspot.com
Jornal Correio do Estado, Campo Grande, MS, 17.01.15
terça-feira, 25 de novembro de 2014
“SUPOSITÓRIO AQUÁTICO” – PRESENTE DE GREGO
O desastre está aí e vai ser repassado para outro gestor, após milhões de aditivos e inacabado. O ultraje à população sul-mato-grossense já foi feito. Agora, resta-nos que o Instituto dos Arquitetos do Brasil e o a Ordem dos Advogados de Mato Grosso do Sul, ou, qualquer outro cidadão de fibra, acionem o Ministério Público, estadual e federal, o Tribunal de Conta, estadual e federal, a Polícia Federal, a Advocacia Geral da União – e o “escambal”! - em nome de todos nós.
O único urbanista a se posicionar contra a construção da aberração do Parque das Nações Indígenas - que não será entregue pelo atual governo, transferindo essa herança maldita para o próximo , além de inviável manutenção - foi o arquiteto CELSO COSTA. Ele (e seu filho também arquiteto André Costa, subsidiaram este artigo escrito por mim em maio de 2011) e que me recuso a alterar o título. À época não foi publicado (a não ser na mídia eletrônica), por ser considerado ofensivo. Pergunto, e, agora, prognóstico?
Segue, na íntegra - direto do túnel do tempo e dos meus arquivos- o artigo, sem tirar nem por, “Supositório Aquático goela abaixo”.
“ Nem a festa, nem o testemunho de ministros e autoridades são suficientes para que nos conformemos com a autorização da execução da obra (900 dias) para a construção do “maior aquário de água doce do mundo”. Divulgou-se que sairá do tesouro estadual, declaradamente, R$90.000.000,00 para a edificação do projeto, com 6,6 milhões de litros de água doce, 263 espécies e 7 mil animais. Informações revelam, ainda, que a empresa vencedora apresentou proposta de R$ 84.749.754,23 sobre o orçamento inicial, dando um descontinho de seis milhões, duzentos e sessenta mil, trezentos e quarenta e seis reais e setenta e sete centavos. A encomenda deverá ser entregue no 36º aniversário de criação do Estado em 2013, coincidentemente, ao término do mandato da autoridade que a gestou e quer pari-la. O requintado e estranho “supositório aquático” ocupará 18.636 metros quadrados dos 119 hectares do Parque das Nações Indígenas, também aqui, o maior parque urbano do mundo! Ao contrário do que pensam seus idealizadores, será um ultraje ao turismo sul-mato-grossense. Não nos orgulha e não catapultará Campo Grande no cenário mundial, porque a nossa verdade socioambiental, vez ou outra, é revelada na mídia nacional e internacional, sintomatizando a falência administrativa do nosso Estado. São os safaris pantaneiros, as pescas predatórias, os corredores do tráfico de drogas e de animais silvestres, os contrabandos, as invasões de terras produtivas e as ocupações de terras indígenas.A construção do “maior aquário de água doce do mundo” não nos orgulha, porque, o mesmo governo, que vai destinar recursos próprios para a obra, destacou-se como um dos cinco (Estados) que brigou na justiça para não pagar o salário-base dos seus professores, agora, garantido pelo Supremo Tribunal Federal. Porque falta aos nossos conterrâneos um atendimento médico básico e digno na área da saúde - os corredores dos nossos hospitais assim o atestam. Não nos orgulhamos disso, porque nossas mais tradicionais escolas estaduais (Lúcia Martins Coelho e Joaquim Murtinho) revelaram um índice de avaliação no IDEB, de 2,5 e 3,7 respectivamente - o nível mínimo para se considerar uma educação de qualidade é de 6.0. Não, nos orgulhamos, porque nossos jovens morrem como moscas no trânsito e em briga de gangues, inserindo Mato Grosso do Sul na estatística de uma das capitais com aumento gradativo do nível de violência. O projeto do “maior-aquário-de-água-doce-do-mundo”, que infla o ego de seus idealizadores, megalômanos, é, antes de tudo, um absurdo. Os recursos a ele destinados construiriam um conjunto habitacional do tamanho de uma “moreninha”, ou um hospital com 250 leitos, por exemplo. O projeto é inviável, inadequado e, sobretudo, agride os mais elementares princípios arquitetônicos, ao importar e viabilizar um projeto de um profissional que, se por aqui passou, foi pelos ares, de avião, estranho a nossa cultura. O “supositório aquático” é um acinte à capacidade profissional da arquitetura sul-mato-grossense e vilipendia todos os profissionais e todos os órgãos vinculados à arquitetura do nosso Estado. Além de tudo, retrata o desmantelamento do ramo empresarial na área da construção civil do Estado e o desrespeito à categoria e ao ensino de arquitetura de Mato Grosso do Sul. É tão sofisticado que não poderá contar com mão-de-obra local para executá-lo; ela também será importada. O “maior” aquário de água doce do mundo, aqui em Campo Grande, é injustificável e desnecessário, sobretudo, porque - se concretizado – destruirá a capacidade turística de nossas cidades circunvizinhas, cuja localização, a pouco menos de 3 horas de estrada, disponibiliza o mais belo e requintado ecossistema do mundo. Lugares esses, onde - seja para atender objetivos turísticos, ou de pesquisa – se pode, não, apenas, contemplar, mas, mergulhar em um riquíssimo ambiente aquático e desfrutar de toda sua biodiversidade. Tudo isso, nas mais límpidas e cristalinas águas do planeta, em cidades, essas sim, com potencial turístico genuíno e em vias de naufragar de vez se o devaneio de agora se concretizar. Para nós, aí está mais uma vez, dinheiro público jogado fora.”
MARIA ANGELA COELHO – doutora e mestre em comunicação e semiótica pela PUC de São Paulo; com informações colhidas dos arquitetos CELSO COSTA – arquiteto com 5 milhões de metros quadrados de obras construídas, galardoado pelo Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura, um dos cem Conselheiro de Minerva da UFRJ, Conselheiro Federal (por Mato Grosso do Sul) do Conselho de Arquitetos e Urbanistas - CAU, e, ANDRÉ COSTA – arquiteto e empresário.
domingo, 2 de novembro de 2014
O mundo prescinde do sectarismo religioso
Era uma bonita cerimônia religiosa de Crisma. Um grupo de jovens, acompanhados dos seus padrinhos, perfilados diante do bispo, apresentavam-se à “comunidade cristã”, para reafirmar, agora, de modo mais consciente, seus votos do batismo. O templo, embora lotado, abrigava confortavelmente cerca de 700 pessoas compostas por fiéis, parentes e amigos.
O ponto alto da cerimônia seria marcado pelo momento em que os crismandos fariam sua confissão de fé, por meio dos atos que, a partir de então, como cristãos, passariam a renunciar. Era preciso, absolutamente necessário, que renunciassem a certas coisas, para merecerem a “entrada no mundo religioso-católico e tornarem-se, de fato, cristãos”. Para tal, deveriam responder a cada indagação do bispo com um alto e uníssono “renuncio”.
Antes, na preleção, a autoridade eclesiástica já havia esclarecido sobre o significado do termo “cristão”, ou seja, “ ungido”: Jesus, o ungido. “Agora, afirmava ela, “vocês são cristãos, ungidos pela crisma”. Sob esse raciocínio, os demais seguidores de Cristo, dos seus exemplos, do seu Evangelho não são cristãos. Essa discriminação e segregação sempre foi comum dentre as religiões. O “outro”, o de fora não é o que os de dentro são. Enfim, todos os que se confrontam com as “verdade religiosas” professadas por determinado grupo não são o que eles apregoam ser.
Um das “renúncias”, porém, deixou-me intrigada, pelo equívoco da informação com que fora propalada por tão alta autoridade religiosa. Expressara-se o bispo, mais ou menos assim: “tem cristão que acende vela aqui no domingo e depois vai no “despacho”, na “mesa-branca”, na segunda”, suscitando risos, na plateia. “Se, riem”, continuou, “é porque, sabem do que estou falando e não deveriam nem rir e nem saber”(sic). “Vocês sabem que 30% dos católicos acredita na reencarnação?!” A crença-espírita na reencarnação é a negação da ressurreição (da carne) e da nossa salvação por Jesus”. “A reencarnação é a auto-salvação e prescinde da salvação de Jesus: o indivíduo nasce, nasce, nasce até não precisar mais, por ter aprendido sobre seus erros”. “Jesus, para os espíritas, é apenas um exemplo a ser seguido”. “Mas, a Bíblia nos diz que só nascemos uma vez!” “Jesus, filho de Deus, veio para nos sal-var!”.
Xeque-mate!
Depois desses (d)esclarecimentos, lá vem a renúncia que me causou espécie. Questionou o bispo aos crismandos: “Renunciam ao esoterismo, à magia, aos despachos e ao ESPIRITISMO?!” “Renunciamos!!!”.
A Religião tem um papel fundamental na vida pessoal e na da coletividade, pois, abranda a rudeza da vida, dos seres, nos prometendo, de uma forma ou de outra, a continuidade dessa - às vezes, tão miserável e sem sentido - vida, para melhor. Seu papel e sua função é ligar o homem a Deus (re-ligare), ajudando-o a transcender a realidade, inclusive, a fatalidade da morte.
Sem ter recebido qualquer procuração dos cristãos-espíritas, gostaria de informar ao bispo que o Espiritismo nada tem a ver com magia, despacho e, ou, esoterismo. O Espiritismo é uma religião cristã constituída, reconhecida e respeitada que preceitua e procura indicar as práticas prognosticadas pelo Evangelho de Jesus; crê que a Bíblia, embora não seja a palavra Deus, contém a história da religião monoteísta do Deus Único trazida a lume pelo heroico povo de Israel (Antigo Testamento) e que possibilitou, que preparou e que aplainou o caminho para a chegada da Boa Nova (Novo Testamento), trazida ao mundo por um judeu – “filho da casa de Davi”. Jesus não é, apenas, um “bom exemplo” a ser seguido; é o ser angelical mais próximo de Deus que a Terra já teve condições de receber; modelo, sim, da salvação a que todos estarão fadados, em sua única e imortal vida, porém, em um contínuum esforço de auto aprimoramento – ao longo de milênios e sucessivas reencarnações, transitando e transformando treva em luz. O Espiritismo não é uma seita que precise ser renunciada, é uma religião a ser respeitada.
Enquanto Francisco, o fraterno, acolhe a todos, cristão, ou não (a comunidade homossexual; às mães solteiras, divorciadas e separadas, afirmando que são “apenas mães”)... Enquanto Francisco, o lúcido, reconhece a validade da teoria do Big-Bang e a teoria da Evolução das Espécies, afirmando que elas não negam a Deus... Enquanto Francisco, o justo, pune os pedófilos e os vendilhões do templo da própria igreja... Enquanto Francisco, o simples, propõe uma reforma institucional sem precedentes, que seja capaz de atualizar - no que puder e lhe permitirem fazer - os conceitos e preceitos medievais da igreja romana católica, aproximando-a do homem de agora, é lamentável testemunhar o segregacionismo, a ignorância e a desinformação pregada como verdade incontestável, submetida a uma cosmovisão ainda tão retrógrada, vinda de tão importante autoridade religiosa.
Maria Angela Coelho – professora doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo – http:mamirault.blogspot.com.br
terça-feira, 28 de outubro de 2014
SE O PT NÃO MORREU ESTÁ NA UTI
Numericamente falando, a causa é essa: 3,28% dos votos válidos – repito, válidos, eliminadas as abstenções - tiraram de milhões de brasileiros a esperança de mudanças de rota para o caminho de um futuro mais digno para nosso País. Isso é nada! São apenas pouco mais de 4.600.000, de um universo de 142.800.000 eleitores (praticamente o número de eleitores do Pará), que permitiram esse acontecimento trágico e vergonhoso para a nação brasileira. Há muito mergulhada em profunda crise de valores, ingressará, agora, com propriedade e competência, em 2015, com os dois pés no “inferno de dante”.
Mas ... essa cota que nos levará à ruína, também, pode significar tudo! Tudo! Mesmo para o mais xiita e, ou, o mais ingênuo adorador do PT, o quarto mandato de “puder” (sic) prenuncia, por si só, a internação do partido na UTI, quiçá os aparelhos que o mantinham tenuamente vivo tenham sido desligados, nesse 26 de outubro, e sua morte - já que ideologicamente vem aos poucos definhando – já tenha ocorrido, faltando apenas um Dante para anuncia-la.
Agora vamos às contas desse veredito tenebroso final. De 142.800 milhões de eleitores aptos a escolherem mudar o país, 27,7% de Pilatos lavaram suas mãos omissas, ficaram em casa, foram passear, assistir o faustão, foram pro raio que os partam e preferiram chafurdar em seus domicílios eleitorais, com seu copinho de brama e 51, nas mãos . Dos votos que o TSE considera válidos, ou seja - tirando esses apátridas de 27% - sobraram 113.400 milhões de votantes, certo? Destes, pouco mais de 51,64% (54.500 milhões) deram a vitória à Dilma, contra os pouco mais de 48,36% (51 milhões) de votos em Aécio.
Se somarmos, os 51 milhões de votos válidos dados a Aécio (48,36%), aos pouco mais de 4 milhões e 600 mil (27,7%) dos que não estão nem aí e sequer se deram ao trabalho (até de se vender) de votar, somos 75,43 % de brasileiros que não queríamos e NÃO QUEREMOS Dilma e sua camarilha no poder por mais 4 anos. Sem falar nas possíveis, previsíveis e até anunciadas manipulações das urnas, se esta fosse uma eleição para síndico de prédio esses números dariam o maior quebra-pau, entre os condôminos. Mas, por enquanto, no mundo dos brazis-divididos, ainda não, embora, haja vestígios de pólvoras, reação e revolta aqui e ali.
Desse modo, fria e calculadamente - tomada por minha formação, vivência histórica, somadas a minha extrema lucidez cívico-política e dever - tenho a audácia de prognosticar que Dilma, embora, reine, agora, não governará. Michel Temer e seus comparsas - visíveis e invisíveis - filiados ao partido, ou locupletados pelo PMDB continuarão mandando nas cartas. O PT, meus amigos, aquele da militância que tomava as ruas e entusiasmava o povaréu, já era, foi pro saco e já não pode nos assombrar mais.
O país, caros colegas, cientistas políticos e marqueteiros, não foi dividido, nestas eleições, porque 2/3 não é metade dos eleitores e muito menos dos 202,7 milhões de brasileiros. Essa contundente maioria não optou pela reeleição e manutenção do PT no poder. Quero ver "dilma-coração-valente" dar conta do recado e da encrenca em que foi metida; com dois terços da população eleitoral na oposição ao seu (des)governo. Quero ver calar o rumor e a baderna que já tomavam as ruas, nossa segurança e expectativa de paz. Só se Temer quiser, o impeachment não ocorrerá. Mas, se ele quiser a legitimação de fato do poder, Temer - além de continuar governando o país, mantendo na água morna, por um tempo, o rescaldo dos petistas, sob o tacão de suas botas, enchendo a administração com suas mais de 3 dúzias dos seus inócuos e corruptos ministérios (ah! Gleise Hofman e Delcídio serão ministros) – logo-logo dará vasão ao processo de impeachment da presidANTA das minorias. Aí, então, Temer ocupará o trono da nação brasileira. Mas...se; se nós, que ‘fazemos parte dessa massa’ dos 75% que não quer Dilma nem PT no poder, quisermos, agirmos, ela não governará esse pequeno feudo de 1/3. Se os 75% quiser - isso, se os 27% deixar de expor a bunda na janela e deixar de ser babaca - e saírem, aqui e ali e acolá, pipocando e ocupando wall street de Norte a Sul do país politizado, MUDAMOS DE FATO A HISTÓRIA DESSE PAÍS. O certo é que a ELEIÇÃO DA SÍNDICA PODE TUDO SUSCITAR. Tudo pode acontecer. Porém, o pior dos infernos mesmo é que, também, TUDO PODE FICAR COMO ESTÁ, ENGASGADO NA GOELA DA BOA GENTE BRASILEIRA, E, NADA, ABSOLUTAMENTE, NADA, ACONTECER. Aí, toda aquela babaquice da mobilização espontânea de milhões de brasileiros, de que participei, em junho de 2013, terá sido em vão, porque terá sido mesmo por vinte centavos (e, eu tenho carro, PÔ!).
Decerto mesmo é que a bola bateu nas nossas costas, doeu, sangrou, sujou a camisa e rasgou a alma, mas, voltou pra gente. Aliás, essa bola sempre esteve com a gente. ACORDA, BRASIL!
Maria Angela Coelho – professora doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
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Publicado, em 30.10.2014, no jornal Correio do Estado, Campo Grande, MS
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Onda de mundanças com quem cara-pálida
“O burro usa a força, o inteligente usa a inteligência... o esperto contrata os dois e ganha dinheiro”. Assim expressou-se o arquiteto Celso Costa - um ilustre campo-grandense em sua linha do tempo do facebook. É exatamente isso o que estamos presenciando nesse segundo turno das eleições, em Mato Grosso do Sul. O que está delineado, hoje, para o eleitor que não quer – e, não deve – abster-se de escolher entre as duas candidaturas postas à mesa; ambas indigestas para quem tem dois ou mais neurônios, algum princípio democrático, ética, honra. Vejamos.
O Brasil - provavelmente, só com Aécio seja possível – necessita sair do blá-blá-blá e de sua barbárie já tão cotidiana, e promover urgentemente a bendita Reforma Política. Olhe amigo leitor, a que nos levou a distorção permissiva e - pasme! – legal de duas imoralidades, ou amoralidades eleitorais, dentre outros retalhos permissivos pelo TSE: (1) o instituto maldito da reeleição (legado à nação brasileira, as custa de um Congresso comprado à época pelo governo de FHC) que mantém (e quer se manter intramuros da Papuda) o poder federal em mãos manchadas de petróleo e dinheiro de doleiros, dentre outros crimes, e, (2) a permissividade dos acordos e pactos (me recuso a chama-los de alianças) de partidos políticos de todas as cores e ideologias, custe o que custar e que junta alhos com bugalhos.
O PMDB de André Puccinelli rachado com o PMDB de Nelson Trad Filho perdeu duas eleições nesses últimos dois anos; nesta, salvaram Simone Tebet, elegeram alguns deputados. Ponto final; foi o que o povo quis! Mas, não, eles, mesmo rachados - mas, não subjugados nem rendidos - querem mais, querem governar, querem se manter no poder e, curiosamente, parte (com autorização do capitão André) bandeia-se para dar apoio à candidatura Azambuja, enquanto alguns já rebelados no primeiro turno seguem orientações de André apoiando e trabalhando para Delcídio. Não importa mais saber quem dos quais está com quem, nessa reflexão: ele - o PMDB- estará no governo com toda sua presença, pujança, interferência e “modus operandi”; seja quem for que você escolha no próximo dia 26. No Planalto eles já governam desde a primeira era Lula que se anunciou como a opção de mudança enganando-nos a todos e compartilhando todos esses anos do mesmo prato de Renan, Sarney, Collor e Barbalho. Assim continuará, se Dilma ganhar esse segundo turno e, talvez, estertorando-se ainda, até se imponham a Aécio (com menor fúria, espera-se!).
Estamos vivendo um processo eleitoral esquizofrênico, no qual a lucidez, a consciência de cidadania política, o conhecimento da história político-social tem pouco o que fazer. A verdadeira classe média, dita elite pensante vai se ferrar de novo! Nós os sabidos, os que querem um país e um mundo melhor, ficaremos a margem de novo, só com o ônus e sem o bônus. Os analfabeto políticos e funcionais, os que se vendem e os que compram: os burros e inteligentes estarão no poder e ganharão essa eleição. Esse emaranhado, esse encruzilhamento, esse cumpliciamento político vai redundar em um índice maior ainda de abstenções e de nulidade de votos neste segundo turno, com margem de erro, ou não. Não é porque o capeta quer apoiar que se deve aceitar, pois, obviamente, ele vai nos levar para o meio dele, e o meio dele, todos sabemos, é o inferno. Azambuja vai colher esse cumpliciamento na derrota nas urnas, ou, em sua gestão e, aí, sim, comerá o pão que o diabo amassou servido por esses agregados. Delcídio, embora represente o continuísmo petista, livrou-se dessa roubada; terá mais chances agora, enterrando de vez parte dessa dinastia PMDB.
O candidato que prenunciava, no primeiro turno, uma “onda de mudança” contra o candidato do “continuísmo do PT”, agora inverte a lógica, apoiado (contaminado, subjugado, cooptado, aviltado) pelas forças retrógradas que governam esse estado e sua capital há pelo menos duas décadas. Se a coligação de Azambuja “fortalecida” (?) pelo PMDB de André (via Nelsinho) ganhar este segundo turno, foram-se as mudanças com vistas à modernidade de gestão, pois, tudo ficará como dantes. E, como pactos não podem ser quebrados, André reinará! André, o esperto, engolirá Azambuja, o ingênuo! Os tentáculos do partido que já se apresentam nas adesivagens de rua, nos eventos públicos - cujos sorrisos partidários prenunciam a tomada da “bastilha” - prenunciam o retrocesso governamental a que estaremos fadados, em Mato Grosso do Sul, caso esse PMDB ganhe no tapetão.
Mas, pergunto de baixo da minha insignificância: não foram eles que, mal avaliados, já perderam pro Bernal, o prefeito cassado, a eleição em 2012, na capital? Não foram eles que agora também mal avaliados perderam esse primeiro turno das eleições? O que os move a apoiarem o ingênuo candidato Azambuja, em detrimento do mais bem avaliado Delcídio do primeiro turno? No caso local, a mudança estaria com o PT? Seria Delcídio o antídoto contra o retrocesso de André e Nelsinho e toda a sua corte de paus-mandados? Com quem está agora a bandeira da “Onda de mudanças”? Quem é o burro? Quem é o inteligente? O esperto bem já se sabe quem o é. Refeição indigesta nos será servida neste segundo turno, mas, não deixemos de dar a nossa opinião, comparecer as urnas e deixar registrada nossa participação, cidadãos livres que somos. E, seja lá o que Deus quiser!
Maria Angela Coelho Mirault
Professora Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
http:// mamirault.blogspot.com.br
domingo, 7 de setembro de 2014
Senhores! Não admitimos mais!
Júpiter – “Senhor da Justiça; deus dos raios e trovão; 2º sol, benevolente, profícuo e grandioso”. É ele quem, segundo os astrólogos, governa este nosso especialíssimo ano de 2014. Tudo a ver.
Periodicamente, a História Humana é rasgada por fatos, cuja contundência assinala mudanças paradigmáticas inescrutáveis, irreversíveis e que traçam o limite preciso entre um antes e um depois; um fim e um começo para novos possíveis (Prigogine). Momentos que lavram com exatidão os registros akáshicos e culturais de uma era que estertora para dar a luz a um novo começar, e, consequentemente, o alcance de um novo patamar – majorante – (Piaget). Vivemos nesse momento paradigmático e esse momento entrópico, na linha do tempo da História do povo brasileiro.
A edição datada de 6/09/2014, da revista Veja, registra um desses instantes paradigmáticos da política brasileira, de virada de jogo, tal como já o fizera ao estampar em sua capa o registro do instante em que o funcionário do Correio, Maurício Marinho, recebia a propina de (meros?) 3 mil reais e que deu origem a avassaladora onda que nos trouxe a epifania do Mensalão e à lume a figura – de certo modo, depois - quixotesca de Roberto Jeferson. Agora, é Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobrás, quem nos brinda com muito mais do que meia dúzia de cabeças coroadas - do eixo Alvorada – entregues à bandeja da Polícia Federal e ao povo brasileiro.
Com a delação premida do facínora da Petrobrás, o sistema explodiu! A casa caiu! E ele, que, apenas, iniciou sua confissão, tem revelado que a pátria brasileira, em mar revolto, há tempos vem sendo saqueada; suas riquezas dispersadas para paraísos fiscais, em nome de um plano criminoso e insano de poder.
Desde a véspera deste 7 de setembro, as faces dos estupradores da nação estão nas páginas das revistas, nas redes sociais, muitas delas identificados pelos fotoshops em peças de campanha. Não é possível que o brasileiro médio tombe alvejado mortalmente e não entenda ainda de onde estão vindas as rajadas que o alvejaram. Rememorar os desfeitos do passado perpetrados por outras quadrilhas não justificam mais os fatos do presente. Não podemos mais olhar pelo retrovisor; precisamos faxinar o presente para salvar o futuro do país. Combalidos, moribundos, do leito sujo de uma UTI, já não nos é mais possível deglutir o prato que nos chega da cozinha nauseabunda do hospital, entregue, delivery, pela Veja.
Os “bandoleiros do poder” (Marco Antonio Villa) se aperfeiçoaram de tal maneira e é tão monumental sua práxis que o brasileiro mediano sequer tem noção de que não sabe e nem sabe que não sabe (Chomsky) o que representa a sangria da Petrobrás e esse momento histórico para si e para os seus. “Destruidores do estado democrático de direito” (ministro Celso de Melo), fundidos a nossa jugular coagulada, no entanto, eles ainda querem mais tempo.
Porém... alto lá! O caos não pode se sobrepor à ordem, que é lei universal. Apesar das evidências, há vida além do final do túnel; a maioria de nós é de gente de bem, cuja predominância dos valores éticos e da boa conduta nos indica ao rol da civilidade. Nós - a nação brasileira - não admitimos mais. Não dá pra desculpar “mamãe” dessa vez, como fizemos com “papai”. Se a senhora não viu, não dá pra ficar e, muito menos, nos pedir pra continuar a arrumar nossos armários e a fazer nossa comidinha; se viu e foi conivente, e, cumpliciou-se ao que há de pior na escória brasileira, seu lugar não é mais aqui em casa. “Asta la vista, baby!”
Estamos implodindo! Somos 200 bilhões de náufragos saqueados. Acorda, Braziu! Que teus filhos não pensem, nessa hora das Oliveiras, que nada mais há a fazer e te entreguem por 30 dinheiros à sanha de Heródes, para mais adiante libertarem Barrabás. A HORA é de reverter o coma, levantar-se e, heroicamente, garimpar nos rescaldos, a preciosidade da escolha acertada da mudanã. Eles, o piratas, não são maioria, são bandidos! Tem gente como nós, honrada, patriótica, timidamente se apresentando nessas eleições; não nos basta ficar com o mais ou menos. E, Macunaíma, pense bem, “laranja” não é solução.
As gerações futuras merecem uma história melhor; nossos filhos, um futuro decente. Acorda, Braziu! A corrida eleitoral mudou de novo e nova largada já foi dada, com tiros de festim, pimenta nos olhos e gás lacrimogênio. Embora a nação estertore, vitimada por filhos seus e o Luto; a Morte; a Desesperança e o Medo nos tomem de assalto... Resistamos!
Senhores! Não admitimos mais!
Maria Angela Mirault – professora doutora em Comunicação pela PUC de São Paulo
http://mamirault.blogspot.com
Publicado no site topvitrine,com.br, em 10.09.2014
jornal Correio do Estado, em 12.09.2014, Campo Grande, MS
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