domingo, 27 de julho de 2014
O gado (não) marcado... decidirá
Faz pouco mais de um ano que 1 milhão de brasileiros tomaram as ruas de 388 cidades brasileiras, sem nem mesmo saber porquê. Os protestos tinham motivações difusas, mas, latentes. Não é natural que toda aquela energia tenha simplesmente se dissipada no éter; ela repercute e ainda retumba por aí, e, com ela, o Brasil está mudando.
Zé Ramalho, o compositor de uma canção (1980), que todo Brasil cantarola, em poucas palavras, resume bem o estado de consciência que ainda optamos por, confortavelmente, manter. Nesse estado, preferimos viver de promessas vãs, na expectativa de um futuro incerto, tal e qual nos diz a letra: “... O povo foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela. E sonham com melhores tempos idos, contemplam esta vida numa cela. Esperam nova possibilidade de verem esse mundo se acabar ”).
Em Admirável gado novo (1980), Zé Ramalho faz uma paródia da obra-maior Admirável mundo novo, do escritor inglês Aldous Huxley, publicado em 1932. Na ficção, tudo se passa, paradigmaticamente, no ano 643 - era pós-Ford - quando valores oriundos da família, religião e relacionamentos pessoais com conotação afetiva são considerados inadmissíveis pelos mecanismos de controle do Estado. Dúvidas e insatisfações eram resolvidas pelo soma – remedinho anestesiante do status quo e estimulante da “pronta felicidade”. Nessa era futurista, as massas vivem como gado, sem pensamento, sem senso-crítico, manipuláveis e manipuladas, anestesiadas, rendidas ao estabelecido como normal. Ramalho faz esse alerta há mais de 30 anos, Huxley, há mais de 80. Mas, precisamos acordar desse torpor. Não há nem haverá soma para todo mundo.
A última pesquisa registrada no TRE (BR 235/2014), divulgada em 22 do corrente – bem antes do tisunami econômico que nos afeta (e, nos sobressalta) e que desencadeou o pronto anúncio (da máquina?) da fornada de liquidez patrocinada pelo Banco Central - apontava a possibilidade de um segundo turno para a eleição presidencial. A mesma pesquisa que dá 36% para a reeleição e 22% para o 2º. candidato opositor registra - mas, ninguém detalha - que a soma entre os que declararam o voto branco e nulo, somados aos que, ainda, “não sabem ou não responderam” quase se iguala a soma da intenção de votos nos dois primeiros colocados, ou seja: 17% (branco/nulo) +39% (indecisos) = 56%.
Pode ser que o voto consciente valha muito pouco nestas eleições, mas, também, pode ser que seu valor não esteja comensurado nas pesquisas de agora, e venha fazer uma enorme diferença, em outubro. Conta simples de se fazer. Éramos 135.804.433 eleitores em 2010, hoje, somamos 141.824.607. Se levarmos em consideração as pesquisas recentes, serão os 39% de indecisos que pode virar o jogo nestas eleições. Somados aos que se declararam pelo voto em branco ou nulo e os que se absterão de votar, as próximas eleições serão o que esses brasileiros deixarem que seja, votando, ou, não. É simples, eles poderão decidir o futuro político, econômico, social, cultural, ideológico do país; consequentemente, influir no nosso futuro. Isso é grave e diz respeito à nossa vida. Nada pior do que a eleição do eleito pela minoria!
Há pouco mais de um mês, o Datafolha havia divulgado que 74%, dos seus pesquisados “querem mudanças nos rumos do país”. Se observarmos bem, essa conta não fecha, se levarmos em consideração, também, o índice de rejeição dos dois candidatos que lideram as pesquisas: a candidata à reeleição mantém 36 % e o segundo colocado, 16 %. Nessa contradição retratada nas pesquisas, pode ser que as eleições estejam manipuladas, por medidas paliativas – até subliminares -, e, ganhas pelo voto do gado novo, de Ramalho; dos que, anestesiados, preferem viver o dolce far niente provisório, mantidos em água morna, sob a convicção de que pior (nem melhor) não fica. Porém, ah, porém ...
Desde o “vai tomar no ...”, proferido em uníssono pela rotulada elite branca, no Itaquerão, na abertura da malfadada Copa, até agora, ecos do despertar de alguns poucos vão surgindo por aí. Talvez, elas estejam migrando para esse índice de 39% dos indecisos. São vozes indistintas que, pouco a pouco vão formando opinião. O troar dos trovões farão relampejar e chover - questão de tempo. Movimento natural, é irreversível, pena que possa não dar tempo, agora. Mas, também, pode; tudo é possível e nada está tão certo e garantido nesse primeiro pleito com a disponibilidade das novas mídias.
Mesmo que alguns cientistas políticos prenunciem que em cenário estável (uso da máquina e do aparelhamento do Estado) a reeleição seja certa, pergunto eu – e tomo a liberdade de alertar a você - que cenário estável é esse que motivou o 5º. maior banco em operação no Brasil (1º. estrangeiro) a alertar aos seus clientes vips sobre o perigo que ronda seus investimentos? E, registre isso em carta aos correntistas, observando que: “a economia brasileira continua apresentando baixo crescimento, inflação alta e déficit em conta-corrente. A quebra de confiança e o pessimismo crescente em relação ao Brasil em derrubar ainda mais a popularidade da presidente, que vem caindo nas últimas pesquisas, (...). “Difícil saber até quando vai durar esse cenário e qual será o desdobramento final de uma queda ainda maior de Dilma Rousseff nas pesquisas”. No encerramento aconselha: “Diante desse cenário, converse com seu Gerente de Relacionamento Select para alocar os seus investimentos de maneira mais adequada ao seu perfil de investimento.”?
Para mim, soaram as trombetas dos anjos do Apocalipse. Isso quer dizer, minha gente, que a sirene está tocando faz tempo, agora, é hora de correr e buscar o abrigo mais próximo, ou, então, ficar e pelejar. A hora não é a de esperar que o gigante adormecido desperte, porque o gigante adormecido somos nós. A hora é do despertar coletivo, hora de influenciar os indecisos e acreditar que é possível apostar no futuro e ser um agente de mudança na história do Brasil.
Maria Angela Mirault – Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
http:mamirault.blogspot.com.br
Publicado em wwww.topvitrine.com.br, www.marcoeusébio.com.br e jornal Correio do Estado, MS, 30.07.2014
domingo, 20 de julho de 2014
Xô, temor servil!
Ei, você! A-c-o-r-d-e! Soaram as trombetas, tocou o despertador, cara-pálida; o torpor da ressaca acabou; o que tinha de ser roubado já foi; Barbosão jogou a toalha, os mensaleiros subiram na mesa; o mundo está em chamas e sem fronteiras; a boiada já foi pro brejo. Pelamor-de-deus, acorde, tire o amor da chuteira, já. Acorde, pois, o Brasil está na UTI, sobrevivendo à custa de aparelhos, sem escolas, sem saúde e muito sem educação. É hora do lusco-fusco, de entressafra, de mula-sem-cabeça, do Armageddon, quando todo o cuidado é pouco. Lobos em peles de cordeiros já nos farejam e estão em nossa caça, com suas vozes melosas e arrastadas, bolsos recheados com merrecas de reais, dotados do mesmo velho vício de nos anunciar suas maravilhas, de nos comprar e de se vender, porque - é bom demais, para eles, manterem-se no poder - a gente é facinha e baratinha demais. Em todas as eleições, prostituímos as urnas e, depois, é muita decepção. Não vale a pena, já vimos esse filme, até na sessão da tarde.
Logo-logo milhares de criaturas - a nossa semelhanças - zumbizando, sairão de seus covis e, com suas fotos sorridentes e muito fotoshop estarão inundando nossas ruas, nos outdoors, santinhos e promessas vãs, querendo confundir-nos, dizendo que fez o que não fez e que não fez o que fez. É hora de lançarmos mão da sabedoria milenar de separar o joio do trigo, pois muita gente decente e ficha limpa estará, civicamente, colocando suas vidas e suas caras a tapas e oferecendo uma nova via mais digna.
A largada já foi dada. Estamos prestes a mais uma refrega com vistas às eleições majoritárias, em todo nosso país. As cartas já estão marcadas, os candidatos escolhidos ou impostos pelas centenas de milhares de siglas partidárias, referendadas pelo TRE. Não tem mais essa de esquerda, centro, ou direita; está tudo misturado - a maior torre de babel - numa verdadeira orgia cívica. Quem é quem; quem está com quem; quem é oposição, quem é situação? Cai fora disso; não existe mais ideologia de partido. Esse papo já era.
Porém... Porém, esta será a primeira eleição alavancada pelas - cada vez mais - surpreendentes inovações tecnológicas na circulação e propagação da informação. Vivemos a era tão propalada por George Orwell, em sua obra 1984, escrita em 1938; a era do big brother – não o da Globo - real, do nosso dia-a-dia, do tempo e do lugar em que todos nos mantemos online. Copiou? Estas eleições serão totalmente diferentes das anteriores, é bom saber. Os verbos comprar e roubar não poderão ser conjugados com tanta eficiência e facilidade, como antes; vai que alguém registra? As classes A, B, C, D, E, F... Z foram dotados de celulares comprados-nas-casas-bahia e todo celular pode baixar um whatsApp qualquer e se comunicar, gratuitamente; o instagran leva qualquer registro imediato paras redes sociais em tempo real; o face é o maior mural de egos do mundo, blogs se atualizam a cada minuto. George Orwell profetizava a existência de uma tela em cada lugar, pelas quais, todos se vigiavam mutuamente em nome do partido, a mando do grande-irmão; em uma Eurásia dominada e mantida com a prática diária obrigatória do minuto do ódio incentivando a delação. Relações e emoções eram proibidas, punidas, e tudo, absolutamente, tudo era passível de ser visto, denunciado, enquanto uma novilíngua alterava significados considerados importantes pelo partido. Mas, bastou um ressurgente, em terra de cegos, para fazer valer toda a obra e desvario da narrativa de Orwell.
Contudo, neste momento cívico, decisivo para nossa história, para história do homem na face da terra, para a história do mundo e, quiçá, sobrevivência da espécie humana é de vital importância não nos acovardarmos. Seja onde quer que estejamos, façamos valer a nossa presença nesse mundo, aqui e agora. Todos somos capazes de influenciar alguém, desde que estejamos motivados. Já pensou na importância da nossa ação dia 5 de outubro? Já se imaginou agente de transformação? É preciso, antes de tudo, que a gente se creia capaz de melhorar o mundo, a realidade tão cruel em que estamos, normoticamente, sobrevivendo. Nós podemos combater tudo que nos aflige: a violência - no trânsito, nas ruas, em nossas casas, nas escolas e portas dos hospitais – a impunidade, a corrupção. Somos responsáveis pelo que nos acontece e nossa presença – e importância - em um mundo em chamas é valiosíssima pra ser abdicada, neste momento tão especial. De um em um, todos nós podemos aderir e lutar pela verdade, pela clareza, pelo despertar da festa; difundir uma campanha que nos faça assumir nossas culpas e nossas responsabilidades cidadãs com relação ao futuro da nação. Posicionemo-nos, flagrante e ostensivamente, contra o voto nulo e o voto em branco, busquemos os indecisos. Já pensou 4 anos de um governante eleito com a maioria dos votos válidos? Exemplificando: de um universo de 100, 80 anule, válidos sobram 20. Ou seja, o candidato com 11, ganha o seu mandato à custa dos votos dos famigerados indecisos, dos alienados, dos omissos e dos vendidos!
Será o nosso voto consciente, inalienável, sim - esse é moeda de troca de valor, mas, sem preço – que nos trará a riqueza de um país melhor para nossos filhos e netos. Façamos com a nossa maciça presença nas urnas, fazer valer a nossa voz em um único e uníssono clamor capaz de balançar a terra, fazer a lua tremer e o Sol se iluminar em 4ª. Grandeza, com nossa pujança e amor à Pátria brasileira. Com garra, assumamos o nosso lugar na vida, no mundo e no futuro do país. Não podemos nos dar ao luxo de estarmos indecisos, agora. Sobretudo, não reelejamos ninguém que nãos nos tenha bem representado em seus mandatos, estes, já tiveram a sua chance e fracassaram, mas, foram parar lá porque lá os colocamos, com nosso voto, com nossa omissão, com nossa indecisão. Façamos política, visto que políticos todos o somos. Façamos política em nossas discussões e pontos de vista em casa, no trabalho, na rua, nas associações, nas igrejas, no ponto de ônibus, na escola, na repartição. Mudemos esse país, chega de brincadeira, da palhaçada da pátria-de-chuteiras. Xô temor servil, ou ficar a pátria livre, ou, morrer pelo Brasil.
Professora Maria Angela Mirault – Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
publicado nos sites; www.marcoeusebio.com.br, domingo, 20/07/2014, www.topvitrine.com.br, segunda, 21.07.2014 e no jornal Correio do Estado, Campo Grande, 22.07.2014.
sexta-feira, 11 de julho de 2014
MARIA ANGELA MIRAULT E MACHADO DE ASSIS AGRADECEM
“Pode não dar em nada”, dirão alguns. Mas, eu creio, antes de tudo, na Justiça Divina, e, também, na Justiça brasileira, mesmo que não venha a ter benefício algum pela luta empreendida. Mas, eu creio que lá adiante, alguém os terá. Porque, quando lutamos, reivindicamos alguma coisa que só nós vimos, só nós fomos buscar fundamento e só nós sabemos que alguma coisa está muito errada, e, por isso, o fazemos não só para si, mas, para toda a coletividade. Por isso, luto, combato, estrilo, boto a boca no mundo.
A Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (e, não é a única!) tem publicado editais e realizado seus concursos públicos, para cargos do seu quadro permanente, totalmente inconstitucionais. Conheço acadêmico que teve desconsideradas duas obras de sua lavra publicadas em editoras de reconhecimento nacional, pois os “doutores” da banca as consideraram ultrapassadas (mais de 5 anos de publicação) desmerecedoras de pontuação no quesito de produção intelectual. Seria tal como se Machado de Assis, Ruy Barbosa, Monteiro Lobato, se vivos, não estivessem aptos a concorrerem a uma vaga em um concurso público da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
O item 7.7.8 do Edital PROGEP no. 04, de 11 de abril de 2014, para o provimento de vagas para o cargo de professor da classe Adjunto A (doutores), no quadro permanente da UFMS prevê que “as atividades de projeto de pesquisa e extensão, produção bibliográfica, produção técnica ou tecnológica, orientações concluídas, produção artística e cultural, participação em eventos e participação em bancas, SOMENTE SERÃO PONTUADAS SE FOREM REALIZADAS COM DATA A PARTIR DOS ÚLTIMOS CINCO ANOS CIVIS, ANTERIORES A DATA DA PUBLICAÇÃO DESTE EDITAL OU, AINDA, NA VIGÊNCIA DESTE ANO.”
Em 15 de maio, último, entrei com uma Manifestação (no. 46373) junto ao Ministério Público Federal, na qual aponto o caráter discriminatório e inconstitucional do referido item, visto que esse ato declaratório da referida Universidade, por ferir o princípio de isonomia, “retira qualquer possibilidade de concorrência leal entre candidatos, independente do tempo de sua produção científica e idade cronológica”.
Hoje (11.07.2014), recebi o teor do Despacho MPF/PRMS/PRDC no. 217/2014, datado de 26 de maio do corrente, da lavra do Procurador da República da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, no qual constato que, após análise da temática, o Ministério Público Federal considera que o expediente discriminatório da universidade “tende a trazer benefícios para certa camada de candidatos inscritos (...) podendo tal entendimento, dar margem a DESPRESTÍGIO, DEPRECIAÇÃO E DEVALORIZAÇÃO DE PRODUÇÕES INTELECTUAIS ACADÊMICAS FINDADAS EM PERÍODO ANTERIOR AO FIXADO, PODENDO CINDIR A ISONOMIA QUE DEVERIA REGER AS PREVISÕES EDITALÍCIAS E A ATUAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA COMO UM TODO”.
Mais adiante, considera o Procurador que “(... ) o critério previsto no item 7.7.8 pode GERAR RESTRIÇÃO INDEVIDA DE CANDIDATOS NO CERTAME, NO MOMENTO, ESTE ÓRGÃO MINISTERIAL, NÃO VISLUMBRA EXPLICAÇÃO JURÍDICA PARA DISTINÇÃO ENTRE PRODUÇÕES CIENTÍFICAS REALIZADAS NESTA OU NAQUELA DATA”.
E, para gáudio de Maria Angela Mirault e Machado de Assis, o Procurador da República determina, dentre outras coisas, INSTAURAR INQUÉRITO CIVIL para apuração do fato denunciado. Essa é uma luta que vale a pena empreender. Aguardemos, pois, a UFMS tinha cinco dias para se manifestar a respeito e já devem ter-se manifestado. Quando tudo parece normal, é preciso saber a quem recorrer. Eu creio.
Professora Maria Angela Coelho Mirault – Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
Mariaangela.mirault@gmail.com
sexta-feira, 23 de maio de 2014
... também não gosto do Dia das Mães
10 de maio de 2014 às 18:03
Lá venho de novo encarnar o Grinch. Agora, com relação à segunda data de maior consumo no comércio, o Dia das Mães. Pra quem não lembra, o Grinch é uma produção cinematográfica alemã/norte-americana, lançada em 2000, que traz a lume um personagem que odeia o Natal. Para impedir que os habitantes da pequena cidade de Quemlândia possam comemorar a data, Grinch planeja sequestrar o espírito natalino. Tudo acontece dentro de um floco de neve, onde vive uma criatura extremamente mal-humorada que, ao querer acabar com o Natal, coloca “a felicidade” das pessoas em risco. É óbvio tratar-se de um personagem odioso – ele é feio, verde, esquisito – afinal, onde já se viu mexer com a “alegria natalina” que a todos contamina? Óbvio também, nessa história, a previsível conversão do malvado, que se arrependerá, pois uma criança tentará convencê-lo da beleza do Natal, blá-blá-blá...
Assim como o Grinch – sem ser verde, considerar-me feia, ou esquisita - odeio o espírito de época dessas datas forjadas e alusivas a qualquer coisa. E com esse sentimento malsão no coração, não poderia ser indiferente a esta data considerada a segunda de consumismo (só perde pro Natal!), em que o mercado comemora o Dia das Mães. Pois bem, porque, minha senhora, perguntará o leitor (se é que ainda mantenho algum), tanta amargura? E, lhe direi: porque (1) quem teve uma boa mãe (são raros) não precisará de um dia no calendário para homenageá-la e presenteá-la; o convívio, o respeito, o carinho já o fez durante todo o sempre, o ano todo, diuturnamente, ad eternum, privilegiados que foram e reconhecidos que o são; (2) quem teve uma mãe assim-assim não será nesse dia que a "amará incondicionalmente", já que os traumas adquiridos na infância e na adolescência, como manchas indeléveis sempre serão duras de serem removidas - se com Freud fica difícil, não será o mercado de compra e venda em um único dia do ano que as removerão. Para estes (maioria), tanto o presentinho quanto a visitinha não terão passado de um Dever; uma Obrigação; (3) quem trás em seu coração a presença indelével da mãe-madrasta, quando muito, terá se permitido uma visitinha, um telefonemazinho, quem sabe, uma passadinha e até o esforço supremo de um almoço em "família" com o intuito de cumprir sua "obrigação" - no final do dia, durante o Fantástico, terá se sentido livre (e, salvos do inferno), crendo que cumpriu com a rotina que o mundo comercial lhe designou e a força do consumo lhe impôs; (4) para as mães, cujos filhos já foram perdidos para a morte, para as ruas, para as drogas, que domingo infernal terá sido esse? (5)... para os filhos que não desfrutam mais da presença materna como terão passado o domingo? (6) ... para os que nunca conheceram a Sua Mãe que fizeram na data? (7)... para os que por ela foi abandonado, o que sentido terá tido esse dia? E ... ?
Para quem é filho, independente da sua presença, do valor do presente, das festividades do calendário comercial, e, mesmo da sua ausência, uma coisa poderá ser feita e de agrado a todo tipo de mãe, a qualquer tempo e a qualquer hora, sem razões, motivos e datas especiais: uma prece de agradecimento, pelo menos, por terem cumprido a missão maior que Deus lhes confiou nessa vida, a de tê-los trazido ao mundo. Razão essa, pela qual já lhes terá bastado toda e qualquer homenagem, pois, para todas nós, ser mãe é, mais do que tudo, perder todos os dias, imperceptivelmente, o filho a quem demos a luz e acalentamos - ou não - para o mundo e para a própria vida. Para nós, independente das comemorações, cada minuto que passa, cada dia que anoitece significa muito mais do que a simples contagem do tempo, pois nos é, também, cada segundo um instante de despedida, de adeus e de morte. Por tudo isso, como Grinch, assim como não gosto do Natal do Mercado, também não gosto do Dia as Mães do Comércio.
Maria Angela Coelho Mirault – professora doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP
Campo Grande, MS, 10.05.2014
Campo Grande alienada e de carroça volta ao passado
Enquanto Fortaleza proibe (Lei nº 10.186) “a realização e divulgação de vaquejadas e rodeios e qualquer outro evento que exponha os animais a maus-tratos, crueldade ou sacrifícios”... Enquanto Recife abole (Lei no. 17.918/2013) a circulação de carroças de tração animal, prevendo uma multa de R$ 500 reais ao carroceiro que for visto neste tipo de transporte... Enquanto Porto Alegre aplica a redução gradativa do número de veículos de tração animal e de tração humana na Capital (Lei nº 10.531,de 2008) até 2015... Ao mesmo tempo em que Paquetá (RJ) e Nova York se mobilizam contra a utilização das charretes de uso turístico... No instante paradigmático mundial em que a Assembleia Nacional francesa aprova mudança no Código Civil (respaldada por 89% dos franceses) e passa a considerar os animais como “seres vivos dotados de sensibilidade” (antes, eram vistos como “bens móveis”), na contramão da História, a inteligentzia política campo-grandense prostra Campo Grande a um retrocesso urbano inadmissível em plena segunda década do século XXI.
O que tinha seu impedimento desde 2009 (art. 68 da Lei Complementar no. 148/2009) e que proibia o livre acesso de carroças nas vias públicas, passa a ser permitido, agora, pela sanção da Lei Complementar no. 232, pelo Prefeito Gilmar Olarte (PP), em 9 de maio de 2014. Ou seja, a título de dispor “... sobre a atividade dos (3000!) carroceiros”, a lei dá livre acesso a circulação de pobres e escravizados animais de tração ao “pacífico e ordenado” trânsito da capital.
Sem mesmo nos determos nas questões urbanas (onde estão os urbanistas?), nosso olhar se direciona ao verdadeiro trabalhador-escravo-animal, que não foi considerado pela inteligentzia política que nos representa no Legislativo e no Executivo, nem pelos representantes da sociedade civil presentes na audiência que respaldou (e pressionou!) a elaboração do projeto de Lei pelo vereador das causas ambientais, Eduardo Romero (PT do B). São tantos os absurdos prescritos na lei que se pode antever inúmeras infrações à leis federais que resguardam e protegem os animais como tutelados que são do Estado Brasileiro, desde o governo Vargas (!) (Decreto 24.645/34); mais recentemente, pela Lei Federal 9.605/98 - dos Crimes Ambientais, cujo art. 32 determina penalidades a quem ”praticar ato de abuso, maus tratos, ferir ou mutilar animais...”, muito menos para o seu § 1º que diz incorrer nas mesmas penas “(... ) QUANDO EXISTIREM RECURSOS ALTERNATIVOS”. Óbvio que há recursos alternativos disponíveis, sem o flagelo e a escravização dos animais, nas ruas de Campo Grande. Há importantes considerações no âmbito do judiciário de que a regularização do trabalho escravo animal (permitida em nosso Código Nacional de Trânsito) possa estar ferindo o item VII, §1º Art. 225, (da lei maior) Constituição Federal, que incumbe ao Poder Público “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que (...) submetam os animais a crueldade”.
Como o Executivo municipal campo-grandense acompanhará a manutenção e operacionalizará a fiscalização da escravização desses animais? Quem estabelecerá os parâmetros de “saúde normal” (Art. 9º da Lei sancionada)? Qual a designação orçamentária para esse acréscimo de atribuições ao Poder Executivo, na fiscalização das condições de vacinação, alimentação, abrigo, cuidados médicos, repouso, higiene? Quem autuará nas infrações? Quem verificará, como prescreve a lei municipal, se o animal ingeriu alimento e água “pelo menos de 4 em 4 horas”? Onde esses animais terão “assistência veterinária? Com que recursos, o Poder Executivo “promoverá esforços para garantir gratuidade (...) dos procedimentos médicos-veterinários”? Isso está previsto no Orçamento desse ano? A quem denunciar o açoitamento e os maus-tratos aos animais?
Não, não há como nos calarmos diante desse retrocesso insano. Penso que a sociedade se educa a si mesmo pelos seus cidadãos que despertam e lutam contra todo tipo de opressão. Pela revogação dessa lei é o nosso clamor à Câmara Municipal de Campo Grande, urgentemente, antes de sua regulamentação. Pesquisem! Estudem, antes de promulgarem suas leis, é tudo o que nós, seus representados, esperamos dos senhores.
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Maria Angela Mirault
mariaangela.mirault@gmail.com
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Não, Neymar, nós não somos todos macacos
A campanha publicitária custeada graças ao astronômico potencial econômico de Neymar com adesão imediata nas redes sociais e de nefasta repercussão pela mídia não passa de mais um lamentável episódio que tomou de assalto nossa já triste história cotidiana brasileira. Não, nem eu, nenhum compatriota, nem ninguém da raça humana pode, agora, aderira essa causa equivocada e declarar-se macaco, como forma de se contrapor ao racismo espanhol que a campanha intentou reverter. Daniel Alves, o cidadão brasileiro que comeu a banana antes de bater uma falta na lateral de campo, tomou um espaço absurdo na mídia globalizada; até nossa presidenta “twitou” a respeito, considerando que o jogador “deu uma resposta ousada e forte contra o racismo no esporte”, enquanto o próprio jogador declarara sua motivação: “rir de retardados”, demonstrando, sim, que sua atitude, embora, inusitada e irreverente, nada tinha de contestatória, levando na “esportiva” a atitude racista do torcedor espanhol. Mas, a campanha deflagrada por Neymar “dando um apoio ao colega” - que já tinha resolvido a questão - pegou mal, para quem tem, pelo menos, dois neurônios, para usar. Pois bem, o racismo é uma chaga da nossa espécie, nasce quase como um arquétipo humano - quiçá, em outras espécies - e se revela na mais tenra idade. Crianças são cruéis na constatação das diferenças; isso não precisa ser ensinado. O que precisa ser ensinado é que as diferenças, que nos distinguem e não nos diminuem, devem ser constatadas e ressaltadas; não nos desmerecem frente aos outros; que a riqueza dos indivíduos reside nessa desigualdade. Onde é que somos iguais? Em que circunstâncias, somos iguais? O preconceito contra as diferenças (pobreza/riqueza/ branco/preto/amarelo/cafuso/índio/senhor/escravo/patrão/empregado/culto/inculto...), muitas das vezes, emerge da própria pessoa que se diferencia pejorativamente dos demais necessariamente desiguais.
O fato é que não podemos aceitar o apelo dessa campanha como resposta. A campanha “somos todos macacos” decodificada em sua “verdade” aceita o preconceito espanhol, sublinha o racismo em si, e, ao significa-lo e ampliá-lo, expande para toda a população brasileira, uma origem darwiniana, sem a devida discussão, antropológica e biológica, necessária. Não podemos aceita-la porque, por natureza intrínseca, somos únicos e diferentes. No Brasil, somos um povo, cujo diferencial do conceito preconceituoso europeu, é composto pela mistura-misturada-de-misturas de tipos de gente. Temos genes africanos, sim; temos genes europeus e nativos, sim, e é, justamente, isso que nos torna tão incrivelmente distintos. Nossas diferenças nos distinguem em nossas (positivas) peculiaridades. Somos identificados e considerados um povo amistoso, amoroso, alegre, descontraído, irreverente, e, até, feliz. Mas, também, “macunaimamente” falando, preguiçoso, indolente, insolente, aproveitador do laissez-faire, e, ultimamente (pela FIFA, principalmente), inidôneos, e, por nós, mesmos, corruptos.
Valorizemos nossas diferenças, nossa ancestralidade, nossas lutas, derrotas e conquistas. Somos, sim, na grande maioria, um povo que se faz e refaz todos os dias, nas idas e vindas ao trabalho, nas filas dos postos de saúde, nas escolas sucateadas. Engolimos mentiras, alienados e anestesiados da crua realidade que ronda a todos nós, que vivemos muito longe dos palcos e dos luxos que a vida esportiva, na Europa, na Ásia, ou lá onde for, costuma brindar meninos distinguidos e assinalados por olheiros e pela sorte, e, que, ao se destacarem como diferentes, alcançam visibilidade econômica de milhares de euros e dólares, tornando-os expatriados voluntários para viverem outras realidades, outras vidas, em outros longínquos lugares. Por tudo isso, não nos venha, agora, Neymar, igualar a todos com o seu limitado potencial de escrutínio a respeito de tema tão abrangente e tão duramente encarado no dia-a-dia dos seus, sim, irmãos e compatriotas brasileiros.
Maria Angela Coelho Mirault – professora, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
http://mamirault.blogspot.com
quinta-feira, 13 de março de 2014
O presente somos nós e o futuro a nós pertence
Pera-lá! Vamos por ordem no galinheiro. Não distorçamos a coisa. Não é a globo quem deseduca, não é o bial quem achincalha a família brasileira, nem antônio-joão quem governa em nossas paragens e “caçou” Bernal. Danilo-gentiles, rafinhas-bastos, anitas, naldos, valeskas-poposudas e faustões não surgiram como cogumelos; somos nós quem deixou as coisas serem como é, estarem como estão. A tese da influência maniqueísta da mídia na capacidade de discernimento do indivíduo é uma tese (da inoculação epidérmica) que já está ultrapassada pelos estudiosos de várias escolas sobre o tema. A mídia não educa nem deseduca o cidadão; ela espelha e retrata determinada sociedade em um determinado espaço de tempo; em outras palavras, ela vomita o que consome da massa ignara; ela sacia desejos latentes no meio social - daí os instrumentos de pesquisa assumir o papel tão preponderante no controle de audiências. Boninho-bial-e-big-brother não existiriam se não atendessem ao consumo e a estética de parte – grande parte – da sociedade moldada nos valores desesperadamente individualista, fragmentadores e imediatistas contemporâneos. Quem educa e deseduca o cidadão é a família (em primeiro lugar), a escola e a própria sociedade. Porém, uma sociedade que atende suas necessidades de sobrevivência com a espetacularização da vida e se acomoda diante do mundo real não quer outra coisa que não seja o que lhe é servido pelas novelas de baixíssimo nível, telejornais editados de informações contaminadas por ideologias; dos programas de entretenimento que são criados e mantidos pela pornografia aviltante.
A vida em sociedade se estabelece e se mantém por vínculos e relações em todas as instâncias; não é possível cortar nenhum desses vínculos e relações sistêmicas de mútua influenciação. Ou seja, todos nós influenciamos e somos influenciados uns pelos outros. Assim, a mídia influencia onde há brechas a serem preenchidas no campo da ética, e, também, da estética. Tanto é assim que, os sistemas políticos e midiáticos surpreenderam-se com o fenômeno das primeiras manifestações espontâneas e simultâneas de julho de 2013, em todo o território nacional, e, mesmo a mídia-aparelhada e que costumeiramente “edita” e “filtra” a realidade teve de se render ao fato social e retratá-lo em seus noticiários, mesmo que tardiamente, mesmo que rotuladamente.
Collor não caiu pela compra da Elba, o lulismo não se estabeleceu e se manteve, elegendo sucessor, pelo estadismo e bom governo que empreendeu. Assim, também, o prefeito da capital não caiu, apenas, por transgredir leis e regimentos. O primeiro caiu pela arrogância e ignorância de que não havia mais lugar para um imperialismo tardio, vulnerabilizando-se às forças governantes; o segundo só se elegeu e governou depois que compactuo com adversários, barganhou fatias de governo, rendeu-se ao mercado empresarial; o último, com seus poucos 200 mil votos, caiu pela mesma arrogância e ignorância política do primeiro, sem utilizar nem um pouco da estratégia do segundo. Como é que um cidadão se elege nos dias atuais e intenta governar sozinho como se fosse um César da Roma antiga? Como é que alguém em pouco mais de um ano perde seus apoiadores e se distancia de todos os complexos sistemas de governo (incluindo a mídia) e consegue desagradar a todos? Governar é considerar as diferenças, estabelecer acordos, fortalecer laços e relações interpartidárias, e, até, engolir sapos. Não é por acaso que temos 39 ministérios e 39 minigovernantes de um poder fatiado, que se mantém (e se manterá a todo custo) por causa desse jogo de cintura trazidos pela práxis sindical-lulista.
Se ainda estamos nessas condições de imaturidade político-social é porque nos faltam instrumentos mais afinados de filtragem da realidade, que nos capacitem para mais adequadas escolhas e avaliações. Gerações futuras precisarão estar mais bem atendidas no âmbito da saúde e educação, para que vislumbremos um país amadurecido, consciente de suas escolhas e decisões. Mantendo-se o status quo, continuaremos assolados pela “realidade editada” das mídias, retratando-nos em nossa pior face, em uma retroalimentação sistêmica de vômitos, lixos, distorções e espetacularização das pantominas cotidianas.
Parafraseando recente artigo - Deserção Social - publicado neste veículo, em 06 de março do corrente ano, “princípios e valores são adquiridos e exercitados na infância. Quando tutores (família e Estado) abdicam desse repasse cultural entrega, cruelmente, por sua ineficiência e leniência, à sociedade, um indivíduo anômalo e despreparado para o convívio social. Esse déficit cultural e educacional jamais será recuperado, pois, lhe foi negado, no momento adequado, a transmissão da tradição cultural dos seus contemporâneos.” Nossos políticos cassados e caçadores não são de Marte, são nossas versões. A causa do futuro da nação pertence aos contemporâneos; lutemos verdadeiramente pela causa da formação de um povo forte e influente na vida político-social do nosso país e assumamos, assim, nossa responsabilidade político-social.
Profa. Maria Angela Coelho Miraul – Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de SP
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