domingo, 1 de março de 2020

Quem você leva na mochila



Março! Finalmente, 2020 acabou de começar. Finda folia – necessária porque ninguém é de ferro – o ano chega com tudo. Os astrólogos designam a data de 22 de março, início do domínio de Aries como data astrológica de início de um novo ciclo. E este novo ciclo vem com Júpiter, Mercúrio, Plutão, Saturno, suas conjunções e suas complicações, arrumando a casa. Ano da Justiça e da Verdade, afirmam; mudanças profundas, também; reinícios... Para nós, os mesmos mortais de sempre, mais um ano, ou, menos um, em nossa conta de tempo; cada dia mais próximos, da partida inevitável. Enfim...
Agora, começam de fato as aulas. A Cidade canta com eles; nossas crianças e jovens de volta à escola. Mas, o que carregam eles em suas mochilas?
É fato que somo personas plurais, em amplo sentido; conosco mesmo e com os que orbitam em nossa vida. Há muito tempo escrevi um poema que dizia assim: “Eu não sou só eu; você não é só você... somos plurais”. “De onde viemos, para onde iremos; quem arrastaremos”. A vida trouxe as confirmações da constatação literária. Ninguém passa sem arrastar suas correntes, nem sem se tornar elos das demais. Sem mais divagações; a questão é: quem se carrega nas mochilas?
Nas mochilas de nossas crianças e jovens; nas bolsas e pastas dos professores, encontram-se toda uma linhagem familiar; pai e mãe - todos os antepassados -, destinos, cultura, crenças, dogmas, “verdades”, mundo interior, feridas e cicatrizes.
Bert Helliger reuniu todo seu conhecimento, todo seu referencial pedagógico, toda sua sabedoria e interpretação das Leis irrevogáveis que regem a Vida. À partir de suas observações de comportamento de tribos africanas; onde passou parte de sua vida de padre católico, trazendo à luz os conhecimentos que adquiriu como pesquisador do comportamento humano, deu significado ao que conhecemos hoje por Constelações Familiares. Corroborou sua tese em um dos mais renomados biólogos da atualidade, Ruper Sheldrake, que concebera, em 1981, o que veio chamar por campos mórficos – um lugar particularíssimo de registros de informações que nos pertencem e no qual habitamos, indubitavelmente. Não somos indivíduos sem registros, sem origem, sem histórias. Nesse campo, somo plurais. Ao participar de uma Constelação, essa evidência se mostra: experiências vividas por nossos ancestrais, que nem tínhamos conhecimento revelam-se surpreendentemente. Podemos, então, constatá-las, reverenciá-las, honrá-las e, apaziguados, seguir adiante e escolher a vida, a luz que nos adianta os passos. Desse modo, é cada dia mais pungente que nos reconciliemos com o passado para desfrutarmos o presente e seguir para o futuro. Todos fazem parte. Todos que nos antecederam e permeiam nosso ambiente sistêmico e morfogenético. Tudo é informação. Tudo se comunica e transcende.
É de bom alvitre pensar na possibilidade de que nessa pluralidade, não estamos sós. Somos muitos; somos plurais. A ancestralidade que nos trouxe á vida está em nosso presente; é preciso que nos reconciliemos com ela. Principalmente, aqueles, dentre nós, que foram excluídos, aqueles de quem ninguém fala e que se procura esquecer. Dar-lhes lugar no sistema – campo morfogenético -, reverenciar-lhes a passagem pela vida, honrá-los, é de fundamental importância.
Que os professores tenham a noção de que em suas salas de aula, adentram também essas memórias informacionais. Nas mochilas e vidas dos seus alunos, adentram, também, seus pais e todos os que vieram antes e lhes trouxeram a vida, bem como, nós, professores, também, carregamos em nós essa complexidade. Deve ser por isso, que, nessa missão, como condutores de vidas com o intuito de viver o aqui e agora a caminho do amanhã, seja tão importante; razão pela qual, deve (deveria) ser tão reverenciada. São muitos os nossos pupilos ocultos aos nossos olhos, carregados nas mochilas. Honremos.

Maria Angela Coelho
Professora Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP
Terapeuta em Práticas Integrativas e Complementares à Saúde

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

O vanguardista paradigma legado por Bert Hellinger



Muito além do semimorto paradigma mecanicista, anacrônico vigente, a referência mais dramática, de vanguarda filosófica, (caminhando para) científica que Bert Hellinger (16/12/1925 – 19/09/2019) formulou, ou - como prefiro chamar – codificou, e, generosamente, compartilhou, pode estar se constituindo, paulatinamente, em um novo patamar epistemológico.
Ao deduzir, no ambiente fenomenológico, onde se dão os relacionamentos, no qual  sempre atuou, dele extraindo a vigência de leis incorruptíveis da Vida, Bert, provavelmente, tenha dado um passo a mais nos postulados filosóficos  universais. Desta feita, sem o peso de arcaicas concepções de conotações dogmático-religiosas. Ao conceber e ao codificar o que alcunhou por Constelações Sistêmicas Familiares, Hellinger remeteu-nos a hipóteses, convincentes, no que diz respeito ao espaço e tempo percorrido e vivido por nossos ancestrais, nos quais estaríamos inter relacionados. Suas deduções nos trouxeram a possibilidade de ampliarmos nossa cosmovisão a respeito dos vínculos - emaranhamento e entrelaçamento – que nos conectam com toda nossa ancestralidade. Nada do que fizeram foi em vão. Nada foi perdido. Eles vivem em nosso espaço-tempo. Eles sobrevivem em nós, e, conosco mantém vínculos inquebrantáveis; capazes de exercer significativa influência sobre nossa existência, nossos rumos e decisões, aqui e agora, e, vida a fora. Esses vínculos jamais foram quebrados (nem nunca serão) pela ruptura da morte, veio nos anunciar Bert Hellinger. Sua formulação remete-nos a nossa gênese morfogenética e ao reconhecimento de que somos parte de um Sistema, que nos conjuga, nos remonta e nos remete à riqueza existencial e ancestral de todos nós. Esse Sistema - atemporal e alo espacial - é quem nos permite a concepção de que temos, sim, um lugar específico, no concerto da vida, a ocupar. Sua formulação correlaciona-nos a uma ordem vigente, oriunda de uma hierarquia preexistente e sobrevivente a esse nosso único e insofismável ecossistema parental.
Sim! Desse único lugar de pertencimento - desfrutado em sua plenitude – nos tornamos aptos a usufruir da vida que vale a pena ser vivida. Sim! Há uma Hierarquia em todos os sistemas a ser reconhecida, obedecida e respeitada, e, ela deve ser honrada. Sim! Por Hellinger, agora, podemos entender a concepção de igualdade; de que vítimas e algozes submetem-se as mesmas leis do equilíbrio vigente. Assim, o caos nada mais seria do que um estágio de compensação e reequilíbrio, obviamente passageiro, precedente a Ordem que a tudo e a todos preside. Sob esse novo olhar paradigmático, não haverá lugar para julgamento, ofensa, castigo, vingança, nem acaso. O que nos encontra, no decorrer da vida, são os resgates dos desequilíbrios cometidos, por um de nós, nesse ambiente sistêmico de informações vinculantes, circulantes e transgeracionais. Essa, a genialidade de Bert Hellinger: todos compartilham de um único e próprio campo morfogenético do seu próprio e singular Sistema Familiar, ao qual não se pode deixar de pertencer.
Após suas postulações e de seu generoso compartilhamento com o mundo, podemos nos olhar e nos entendermos melhor como indivíduos. Temos, sim (!) uma origem, que nos encadeia e nos responsabiliza uns com os outros, muito aquém e muito além do tempo contado e do espaço medido. Somos filhos, netos e bisnetos de muitos outros filhos, netos e bisnetos; conectados a uma cadeia sem fim de nossa clã sistêmica.
Somos a vitória, ou o fracasso dos milhares que nos antecederam na jornada da vida. Trazemos suas dores, suas lutas, suas derrotas, suas vitórias, inscritas nessa bolha que compartilhamos. Bert não só reconhece esse lugar, como nos propõe ser possível a reconciliação com esse passado que lateja em nós. Porque, a partir desse encontro e com esses entes que se perdem no tempo que já passou, é necessário que tudo dê certo para os que, agora, virão adiante.
Incontestável será deduzir que a exclusão de qualquer que seja a individualidade entrelaçada nessa corrente; qualquer descumprimento referente às leis que regem os Sistemas exigirá a devida compensação, de forma que a Ordem seja restabelecida. Não somos sós, somos plurais e essa pluralidade existencial exige respeito e reconhecimento no intrincado inter-relacionamento da vida, encadeada que é com o que já aconteceu, para que o novo possa prevalecer.
Valeu, Bert, sua jornada não foi em vão. Enquanto sua vida, por aqui, se foi, sob seu olhar diligente, também, sua luz nos conduzirá ao reconhecimento da possibilidade de melhor entendermos os resgates e compensações que nos levarão a tomada da próxima decisão e do próximo passo. Estamos todos em situação de cura e reconciliação sistêmica, para um novo patamar existencial. Gratidão.

Maria Angela (Dias, Serra, Campagnac, Pimenta, Mirra, Coelho) Mirault
Professora doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo; terapeuta sistêmica familiar e de práticas integrativas e complementares à saúde.
htt:mamirault.blogspot.com

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Quem está comendo mosca?



            Não sei se você sabe. A Portaria n°1.100/2006 que regulamenta o exercício da Classificação Indicativa de diversões públicas, especialmente obras audiovisuais destinadas a cinema (...)  e congêneres, de autoria do já falecido ministro Tomaz Bastos, traz embutido, em seu Artigo 18 e 19, que, a “informação detalhada sobre o conteúdo da diversão pública e sua respectiva faixa etária é meramente indicativa aos pais e responsáveis (sic) que, no regular exercício de sua responsabilidade (sic), podem decidir sobre o acesso de seus filhos, tutelados ou curatelados a obras ou espetáculos cuja classificação indicativa seja superior a sua faixa etária” (sic). Tal Portaria (um ato administrativo, ordinatório, com o intuito de disciplinar o funcionamento da Administração Pública e a conduta dos seus agentes), do falecido ministro, outorga ao discernimento dos responsáveis tais autorizações, como se o país não fosse o maior produtor de violência, ao vivo e em cores, emancipando todo tipo de pessoa a submeter seus tutelados a vitimização psicológica, mental e social, por serem por elas seus responsáveis.
            Enquanto isso, a Constituição Federal (1988) - fonte primeira de onde devem pautar-se e beber todas as demais leis, normas, decretos, portarias - é a maior prescritora dos conjuntos de normas de um país, situada no topo de todo ordenamento jurídico, determina as atribuições e limites das (todas) instituições, (todos) os direitos dos cidadãos e o imperioso, descurável dever do Estado. Em seu artigo 227, determina, ao prescrever como "dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, dentre os direitos, nela descritos, o direito “à DIGNIDADE, ao RESPEITO (...)" “além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.
            O que nos diz o Artigo 18, da LEI 8.069/90 (ECA), com relação aos direitos-fins à “liberdade, ao respeito e a dignidade”, segundo o cientista político Deodato Rivera? “(...) liberdade-respeito-dignidade é o cerne da doutrina da proteção integral, espírito e meta do Estatuto, e nesses três elementos cabe à dignidade a primazia, por ser o coroamento da construção ética estatutária” (sic). Em assim sendo, o Artigo Art. 17 (ECA) determina “o direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais”, afirmando ser o “dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”(art.18).
            O que vale mais neste país, uma Portaria, impondo normas e condutas ao público em geral, a quem não está ligado por nenhum vínculo de subordinação, ou, a Carta Magna, fonte de todas as fontes, e a Lei 8069/90, que instituiu o Estatuto da Infância e do Adolescente?
            Quem está comendo mosca, ao permitirem que crianças menores do que a Classificação dos espetáculos determina e que estão “autorizadas” pela referida Portaria à submissão ao “tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor” (CF/88), violando a “integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças”(ECA)?
            Em sessão de cinema, domingo, no Cinemark, em um filme com classificação de 16 anos, duas crianças aterrorizadas - uma de quatro e outra de 11 - estavam “autorizadas, por estarem acompanhadas pelo pai”, a assistirem todo o altíssimo teor de violência que o filme apresenta desde a primeira cena do assassinato de uma família à mesa do jantar, pelo aval da Portaria do Sr. Tomaz Bastos.
            Onde estão os direitos do cidadão que é instigado, pela Lei 8.069 (ECA) a agir em conformidade com o “dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”? Onde está o meu direito constitucional de não compartilhar do mesmo ambiente em que crianças estão sendo submetidas a verdadeiros episódios de tortura psicológica, física e mental? Com a palavra o Ministério Publico Estadual, a Promotoria da Infância e da Juventude; a Defensoria Pública;  a Rede de Proteção à Infância, se é que existe? Enfim, por que se calam?

Maria Angela Coelho – Professora doutora e mestre, em Comunicação e Semiótica, pela PUC de São Paulo. https:mamirault.blogspot.com
22 de agosto de 2018.
https://www.correiodoestado.com.br/opiniao/maria-angela-mirault-quem-esta-comendo-mosca/334763/


domingo, 5 de agosto de 2018

O efeito Bolso-Míriam




            A animosidade permeou as entrevistas no “padrão” da maior rede de televisão concessionada do Brasil. Todos os candidatos foram desfolhados em suas egocentricidades e suas idiossincrasias. Tudo em nome da falácia da pseudo-neutralidade-jornalística; que, é bom que se declare, em alto e bom som, não existe.  Boa parte da pauta foi usada, não para o esclarecimento de possíveis propostas para a governança do caos vivido por nós, mortais brasileiros.  Só para exemplificar, na área da segurança, estamos em guerra deflagrada, mas, não declarada, com o narcotráfico, sitiando e matando civis e policiais, sob o comando de chefes de facções e narcotraficantes, nas capitais brasileiras. sem adentrar as demais áreas estruturais, como saúde, economia e educação. São esses os desafios do país, que o ungido pelo voto receberá no dia primeiro de janeiro de 2019.
            Assistimos embates grotescos entre entrevistados e uma quantidade excessiva do primeiro e segundo time de jornalistas da emissora. De certo, que todos almejam alçar a gestão desse governo desgovernado. Todos declaram saber o lugar em que a fera ruge. “Tirar todos os 63 milhões do SPC” foi uma boa sacada, e, se tudo dependesse apenas disso, a eleição já estaria decidida. Mas, não é bem assim que a música toca.
            O que mais ficou evidente é que o formato da programação foi uma lástima. Um time de copa-do-mundo tensionando, todo o tempo, inamistosamente, os cinco; mais como bandidos, do que como convidados. Alguns se mantiveram na boa-educação, mas, mesmo assim, foram constrangidos a formular a frase “eu também sou corrupto, eu, se não participo, sei das maracutaias do meu partido, sou quase um inelegível”.
            Uma das entrevistas, porém, fixou a marca do evento jornalístico. Sob o comando da premiada escritora-âncora-jornalista, apresentou cenas patéticas de deboche e constragimento. O último acuado terminou sua pífia participação com deboche e gargalhadas, enquanto todos os perguntadores silenciados, mantinham a postura de seriedade, conforme o “manual” prescreve. Contudo, mais surpreendente do que já havia acontecido, foi o “editorial”- a voz da empresa - ditado, monossilabicamente, ao ouvido da apresentadora,  e,  por ela, roboticamente, repetido que marcou o inusitado da situação. O texto saiu-se como um cheque-mate; calou as gracinhas e gargalhadas do incontido candidato, mas, por sua vez, tal fato virou meme; repercutindo, negativamente, pela internet. Na estratégia de desmentir o candidato, a emissora tentou justificar o injustificável, e, apelou, sem permitir a réplica do candidato, aquietado e silenciado.
            Pelo visto, durante esse perigoso período, teremos de tudo, desde um partido insistindo em melar o pleito, com um candidato inelegível, quanto pela qualidade inerentes aos próprios candidatos e seus vices (não nos esqueçamos de que estaremos elegendo os vices, para serem vices!), coligações e promessas absurdas. Contudo, vale a pena ressaltar que devemos prestar atenção na performance jornalística, seja na tevê aberta, ou, tevê paga. E, mais, na repercussão  do tête-à-tête  das redes sociais. Um espetáculo, em um curto espaço de tempo até o Natal, com resultados imprevisíveis para os próximos anos. Que o povo saiba ler nas entrelinhas, e, realmente, escolher dentre o que está no varejo, porque, apesar da gente nem imaginar, essa eleição pode piorar a conjuntura atual, pra lá de péssima.  Gargalhadas, piadas, tiradas rasteiras, certamente, não podem governar um país. Autoritarismo e “sabedência”, também, não.
            Que os letrados intelectuais (?!) da imprensa, seus produtores e pauteiros saibam realmente com que tipo de gente estão lidando: seja de nossa parte, do lado de cá, seja do lado de lá da fronteira, desse big-brother eleitoral, no qual um dos candidatos, pífios, ou, não, queiramos, ou, não, receberá a faixa presidencial.

Maria Angela Mirault – doutora e mestre em comunicação e semiótica pela PUC de São Paulo.
https:mamiraut.blogspot.com

5/08/18

sexta-feira, 15 de junho de 2018

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domingo, 3 de junho de 2018

Pubricitários... menas ok



            Um erro crasso - que, comumente, os afetos colonizados e entendidos chamam de target (traduzindo: público alvo) de uma campanha publicitária - é desconsiderar a delimitação do receptor, para o qual todo o esforço de marketing quer alcançar. Mas, isso é fácil. Com quem você quer falar, interagir? Pra quem você quer vender a sua ideia, ideologia? De modo geral, quem consome a sua demanda, quem tem a ver com você. Mas, porém, contudo, em determinadas datas comemorativas, às vezes, se quer “causar”, extrapolar, sair do balcão e botar a boca no mundo com o intuito de se obter três minutinhos de fama. Joga-se, então, aquela mensagem dirigida ao público A para propagandear o que se quer: seja produto, gosto, valores, ao público B,C e D.  É muito simples e barato utilizar esse recurso; não o fosse, não teríamos tantos tapumes enfeando nosso mobiliário urbano mercantilizado. Como assim? Simples: alugamos e invadimos o espaço público concessionado -  permitido, concedido, pela Prefeitura, sob o amparo de uma leizinha municipal – e, adquirimos o direito de “megafonearmos” o que quisermos, aos gregos e aos troianos; com potencialidade de impactar fariseus e  publicanos. Se uns não gostam, atingimos outros, e, junto, atingimos, a massa ignara, alienada e “saliente”. Pow! Sucesso de campanha! Gênio da “pubricidade tupiniquim”; prêmio á vista.
            Se “o” lojinha é de comercialização de produtos para um público seleto (no caso, muito seleto - ahn?!), que, além da azulzinha, precisam apimentar suas práticas, por que, “esse” lojinha extrapola seu reduto comercial, provoca e invoca toda uma sociedade, não, apenas, a consumir seus brinquedinhos, como, também, induzi-la ao cometimento de suas práticas corriqueiras. Assim: “No dia dos namorados, saia da dieta (traduzindo: largue o que costuma COMER (patroa, namorada, etc!) e COMA um RABO, uma PIROCA, uma BOCETA (outsider)!
Normal! Êxito! Atingiram o target da campanha! São gênios!
Não. Não e não.
Atingir o target é saber o que se fala, para quem se fala e como se fala. Isso é êxito de campanha. Melhor, êxito de qualquer processo de comunicação. Do tetê- à- tête; fuça à fuça, ao empresarial, comercial, religioso, cultural.
A não diz (o que quer) a B (sob os códigos de ambos) para os Cs e os Ds! Isso é propaganda fascista, insidiosa, criminosa; indutora, quase subliminar. Se A quer falar com B, sob os códigos que dominam, é preciso se adequar a mídia, sempre, sempre, sempre direta: pé do ouvido, cara-a-cara, whatsApp, mensenger, email, cartinha, bilhetinho, cartãozinho, etecetera. Assim considerando, entendidos, o “Saia da dieta e coma um rabo” não é uma mensagem do target atendido com sucesso.
Há já bastante tempo, as mídias tradicionais, tragicomicamente, denominadas de massa, perderam muito de suas eficácias, para as novas mídias interativas personalizadas. As denominadas mídias sociais, desde o advento do ainda não explorado totalmente mundo da internete, sofrem ainda da esquizofrenia  de adequação do seu perfil, pelo menos em cinco aspectos: tempo, espaço, meio, receptor e mensagem. Os “pubricitários” formados pela escola da propaganda gebelliana, que, anacronicamente, ainda se ensina na academia, muito, pelo anacronismo na formação dos seus próprios docentes, formados pelas sombras das escola dos anos 1970, só acertam mesmo, com exatidão a cor preta de suas vestes, nos eventos de premiação. As formações acadêmicas em Comunicação Social foram resultantes de um dos projetos propostos e nascituros da ditadura governamental à época. Muitos de nós, que lá afluímos, sequer nos demos conta (ainda hoje! Credo!) de que no objetivo implícito dos cursos encontrava-se a formatação de um determinado capital intelectual a ser disponibilizado a um projeto de incursão no direcionamento da comunicação, dita social, que não “podia” ficar assim na mão de qualquer um. Nesse rol e nesse esquema adequaram-se aos denominados curso de bacharelado em Comunicação Social, as habilitações em jornalismo, relações públicas, publicidade, dentre outras de menor expressão. Por determinação governamental-ditatorial intentava-se mesmo era o controle do fenômeno incontrolável dos processos vitais da comunicação.
Foi a partir da Constituição de 1988 que o projeto foi bagunçado, mesmo as custas de muito chororô dos sindicalistas, derruindo, porém – graças a Deus – pelo menos, essa escusa arbitrariedade. Ecológico,  por se tratar de fenômeno da vida – bio-psico-social; intra e extra-sensorial, a comunicação, é de livre percepção, codificação, emissão, recepção, veiculação, decodificação (sem ordem nessa parada). Fenômeno esse que foge mesmo a esfera humana; abarca o micro e o macro cosmo; presente organicamente em todos os seres e esferas da vida. No entanto, ainda hoje milhares de jovens vão ao Enem com a opção lacrada em suas mentes de “cursarem” Comunicação Social, prioritariamente, na habilitação em Publicidade, a menina dos olhos de ouro do mercado. E, formam-se dúzias, dezenas, centenas de jovens publicitários, que, no fundo, não sabem nem pra que, ou pra quem estarão trabalhando. Na esteira, ainda se formam alguns jornalistas e uns poucos relações públicas, sob o foco embaçado de um anacrônico espelho retrovisor, a serviço de uma demanda que não mais existe.  Em passant, é isso!
Bien, mon ami, allons-y! Se queremos nos atribuir a competência do domínio empresarial, eficiente e eficaz de um fenômeno da natureza contido em nossas técnicas (obsoletas, reafirmo), vamos seguir as lições de 4 décadas atrás, ok? Quem comunica, comunica algo, a alguém, por intermédio de um canal. Esse algo é a mensagem a ser comunicada. Pois bem, o Gebell do processo terá, antes de tudo de saber: quem, o quê, quando, pra quem, com que finalidade. Se quero publicizar um conteúdo às massas, utilizo canais, vias, veículos, mídias que atinjam a massa. Se quero propagandear um produto a um público definido, busco adequar tanto minha formulação da mensagem quanto minha formulação midiática. O target me exige essa adequação. Os ignorantes dessa baboseira pagam, e, o mundo roda.
Maintenant que c'est fini, tá valendo tudo. Daí, apesar de extremíssimo mal gosto, mandar comer um rabo, no dia dos namorados, por meio de uma mídia absolutamente inadequada, e, ainda, ter a pretensão de constituir-se um target de sucesso, é um problema de um anacronismo doloroso. É de chorar! Meus pêsames, então, aos criadores, aos marqueteiros, aos pagadores e aos mantenedores dessa grosseria com a “massa”, “je vous demande pardon, monsieur, mais allez vous faire foutre ! pelo menos, eu, não vou sair do regime, nem vou ser “comida”!

Professora Maria Angela Coelho Mirault – doutora e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
C. Grande, 03 de junho de 2018

sábado, 2 de junho de 2018

Quero ver a liberalidade aqui


       
            Duvido que publiquem! Duvido que tão claramente assim, se justifique, sem que os carolas pudicos se horrorizem; os pseudos-liberais a abonem. Duvido que, assim, tão explicita, os senhores das leis não se deem conta da licenciosidade envolvida; que os legisladores e executivo da cidade não se detenham e que, TODOS, diante do estranhamento, não se questionem: é isso mesmo que estão dizendo, na nossa cara?         Foi, exatamente, assim que, em nossa fria manhã deste sábado (2/6), nossa cidade-capital, Campo Grande amanheceu e foi brindada.  A mensagem é safada, insidiosa, grotesca, criminosa e diz assim: “No Dia dos Namorados, saia da dieta e coma uma “piroca”! E, “No Dia dos Namorados, saia da dieta e coma uma buceta”! Os outdoors estão em toda cidade; impossível não vê-los e não os decodificarem, exatamente como intentaram que o fossem (na linguagem e interpretação de alguns respeitáveis publicitários; exitosa campanha!). Alguns acharam engraçado e tocaram suas vidinhas amorais, outros, sequer, se deram, ou, se darão, conta da obscenidade ali exposta; a título de licença publicitária. Os inúmeros outdoors encontram-se em todos os lugares comercializáveis, emporcalhando nossa cidade - incluindo um dos quais ao ladinho da Igreja Matriz  de  São José!
            Então, tá! Se a exacerbação do tema veio da mente de uma pessoa reacionária cujo imaginário licencioso “leu” e “interpretou” o que quis, pode, TUDO! Se nada tem demais, se a interpretação é livre e de responsabilidade do receptor, porque lá, na mensagem publicitária, só está “um saco de pipocas e algumas batatas, com letrinhas e espaços pra completar (P - - - CA;  B - - -A”,  vamos usar o espaço público para qualquer mensagem, sejam elas licenciosas, imorais, racistas, mentirosas, insidiosas, que manifestem nossos mais obscuros valores, crenças e doenças mentais. Então, tá, se está tudo justificado, em nome do não-censuramento, que fique instituído o vale tudo – pagou/veiculou! Que passe a valer para tudo, sejam mensagens indutoras ao nazismo à explícita manifestação de racismo;  às divergências religiosas, à homofobia, e, seja mais lá o que  nos der na telha! Se o que está valendo (e deva ser preservado) é a liberdade de opinião e expressão;  é o direito ao livre-pensar, à licença poética e publicitária, à relação de demanda e consumo, como diria Tim Maia, a partir de então, vale tudo!
As palavras nada mais são do que signos arbitrários. Ponto! Mas, é no ecossistema semiótico social que se consolidam e representam alguma coisa para aquele sistema. Palavras indicam coisas; nomeiam coisas, organizam o caos. Na verdade, é fato de vertente científica no que diz respeito ao tema, que toda e qualquer mensagem só se realiza, encontra significado, na recepção do agente receptor, e, não na emissão do emissor, nem do mensageiro. Em tese, “não sou responsável pelo que você entende do que eu quis dizer”. De fato, é o receptor que detém o start do reconhecimento sígnico, da decodificação dos códigos linguísticos que constituem o texto emitido, em conformidade com seu potencial  e referencial simbólico, seu ecossistema semiótico.  Porém, isso não isentará, em nenhuma hipótese, o criador, o mensageiro e o veiculador da mensagem dos resultados obtidos, no final da cadeia semiótica comum a ambos. Estivesse ela codificada em russo, não haveria no nosso imaginário linguístico referencial de reconhecimento cultural possibilidade de decodificação; portanto, não haveria sequer a mensagem, por não haver recursos para sua interpretação e decodificação sígnica.
Com relação à peça publicitária, em questão, tanto o criador (infelizmente, nem entendeu seu juramento e sua responsabilidade profissional); a agência que a produziu; o empresário que a encomendou, a aprovou; a referendou e a pagou; a empresa que a admitiu e comercializou seu espaço concessionado pelo poder público, bem como,  os órgãos públicos que permitiram, por ignorância, ou omissão, sua publicização, são, sim, responsáveis pelo apelo violador, nela contida, no âmbito da Estética e da Ética que deveria, deverá, vigir nossa convivência social civilizada. É pra isso que estamos convivendo em sociedade. Dizer o que se quer, custe o que custar pode nos custar muito caro. Sem conservadorismo, sem puritanismo, sem viés reacionário, seja lá quem for, que se retirem, já, esses componentes do mobiliário urbano de nossa capital. Que assumam suas responsabilidades, cada qual em sua instância. Nós não merecemos isso!

Professora Maria Angela Ceolho Mirault – Doutora e Mestre em Comunicação e Smiótica pela PUC de São Paulo
C. Gde, 02 de junho de 2018.