terça-feira, 5 de abril de 2022

Tratado de paz

 

Niki apanhou na pré-escola. Na saída, um pranto incontrolável recortava suas palavras, e sua tentativa de contar o que acontecera e expressar a sua dor! Ele mal completara quatro anos e experienciou o amargor do seu primeiro ataque de um semelhante e habitante de um – presumivelmente - ecossistema favorável a ele e a convivência com seus iguais. Naquela manhã, Niki havia se deparado com a agressividade do mundo externo ao seu - naturalmente antropocêntrico, ameno, colorido, estético, ético e acolhedor – e, conheceu um dos seus porquês. O episódio aparentemente fortuito (há coisas tenebrosamente – meu Deus! – piores, neste mundo e perpetrado contra a infância!) fez com que Niki adentrasse em um novo mundo: lá fora, “a gente apanha”; lá fora, “dói”!

Em grande escala, somos Nikis. Mesmo que, munidos pelas experiências adquiridas; pelos inúmeros processos do bater e do apanhar, ainda choramos e morremos, perdidos na lógica do porquês.

O mundo de Niki é o nosso mundo contaminado e pulverizado por espécimes agressoras.  Parece mesmo que essa mutação esteja ganhando pelo grito e opressão; adaptados, tenham aprendido a reverberar seu domínio e seus demônios. O que sobressai é uma insanidade vigente insuportável, ofensiva, repugnante, mas, trivial, guerreando e fazendo suas ocupações em todos os territórios já em escombros; combalidos e tomados. Há uma carência retumbante de comprometimento com o Outro, com o Igual e o - mais hediondo - com o Diferente, em todos os espaços. Aliás ... nem precisamos do lá fora, já que nem damos conta dos bélicos conflitos do fogo-amigo, dentro dos nossos bunkers. De repente, nos vemos (ou sabemos) brigando na rua, nas casas, na família (ah! as famílias!). As pequenas guerrilhas  - entre seres, antes, queridos – eliminando qualquer possibilidade de entendimento e convívio, formando o exército de uma subespécie de almas migrantes em busca de um lugar de sobrevivência; uma nesga de espaço entre as fronteiras do antes e do depois.  Há evidência de muita revolta, muita raiva pronta a explodir em nossos – aparente e enganosamente pacíficos - pedaços existenciais. Todos os dias - kamikazes – saímos de casa, munidos dos nossos próprios coquetéis molotovs e deixamos nossas bombas reativas, colocando, all time, nosso arsenal de guerra em estado de alerta máximo. Em estado de guerra permanente, saímos dos abrigos nucleares, em que se transformaram nossas protegidas casas, apontamos nossos poderosos mísseis para qualquer um: o gatilho pode ser uma mera buzinada, um coco de cachorro na calçada do vizinho e nossos “tanques desgovernados” passam por cima de nossos próprios carros.

Sim, somos nós quem alimentamos, diuturnamente, esse estado de guerra; oferecendo ao mundo nossa alta densidade e psicosfera bélica, hipnotizados (imbecilizados?) pela força das redes,e, ainda, pela desinformação emanada dos canais abertos e restritos das tevês.

E, aí, camarada, de dentro dessa vida que levamos, neste lugar em que vivemos, apartados e conflagrados, quem somos nós, para palpitar e tomarmos partido em guerras e conflitos dos outros?

Desliguemos, urgente, e, primeiramente, nossos “tubos” de (des) informação e cuidemos um pouco mais e verdadeiramente das nossas querelas pessoais e cotidianas. Porque o tratado de paz, que vale, verdadeiramente, não depende do Capital Internacional e armamentista; da OTAN, da UE, de Beiden, de Putin e Zelensky. A nossa guerra desenrola-se virulenta e nefastamente dentro de cada um de nós e ao nosso redor. Nesse contexto, só nós temos o Poder de desligar o estado de alerta máximo; nossa fabricação doméstica de bombas e assinar Esse (nosso) Tratado de Paz.

Namastê!

Professora Maria Angela Coelho Mirault é Doutora e Mestre pela PUC de SP, em Comunicação e Semiótica: Signo e Significação das Mídias

Campo Grande, MS, 28.03.22

Em tempos escatológicos

 


Nesse momento escatológico, em que a bund*-da-anita catapulta a cantora brasileira para o number one de um streaming, e é comemorada pelos quadrantes como se fosse a Copa, tudo nos é permitido e possível. Mas, já que tudo é possível, também minha opinião o é.

A pior Campanha publicitária que subliminarmente associou VAGINA com VACINA foi premiada, recentemente, em SP! Rufem os tambores! Pasme-se! Misógina (Misógina!); abjeta; indecorosa; degradante; infamante foi considerada a melhor do mercado-erótico-sensual, na categoria marketing?!

Uma escatologia que bem caberia em um folhetinho, cartazete, mala-direta para usuários da lojinha, foi para em lugar público, por meio de vários outdoors espalhados pela cidade de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, em comemoração ao Dia dos Namorados, em 2021: ano da pandemia que assolou nossas vidas sobreviventes e deu fim a outras inesperadamente. Assim dizia: “Feliz Dia dos Namorados para quem só pensa na V A - I N A”, de forma que o receptor-decodificador daquela ideia completasse (jocosamente, segundo os expositores) a frase. O “oscar” deu-se em São Paulo, agorinha, quase junto com number-one-da-anita. Tudo a ver, em tempos escatológicos. Agora, contentinhos, voltam e comemoram com a “gente” e dizem publicamente:  “Mostramos o poder da V A – I N A!”. De novo, está lá replicada nos outdoors da cidade.

Desde quando associar VACINA com VAGINA é engraçado?! Aonde estão as mulheres-ativistas, as carolas, as dessa ou daquela cor partidária, que passaram, viram os outdoors, a mensagem, e, também acharam engraçado? Identificaram a misoginia? Sabem do que se trata? Não! Não vi reação à repugnante mensagem, nem lá, nem agora, na comemoração. Eu a vi exposta na Avenida Ricardo Brandão pra quem quiser. De novo,  embrulhou-me o estômago, embaralhou meus neurônios e me agrediu.  A escatologia e a misogenia não têm nada de engraçadas. Trocadilho e baixaria deveriam ser inadmissíveis no campo da Estética publicitária; já que o são no campo da Ética. Nem vem com a tal da licença-criativa pra cima de mim!  O outdoor foi uma peça publicitária inapropriada e totalmente outside. Uma mensagem – qualquer que seja – só se completa na interlocução de um receptor. E, nesse caso, propagada ao leu, não se completa como foi idealizada. Sofre as naturais distorções semióticas-culturais, próprias de cada um dos que a recebeu. Pois bem, chegou a mim que “completou” a letrinha e caiu mal; reverberou minha indignação, que se indigna agora com a mensagem de comemoração que grita aos meus ouvido outra vez: (eles) “Provamos o poder da va-ina!”.  Brincadeira. Acinte.

O que tenho aprendido nesses finais dos tempos? Aprendi que o que sempre se fez entre paredes - e, antes, publicamente, causava vergonha - sobe aos palcos, vira clipe, e é comemorado como um troféu da nação. Aprendi que chamar um morador e fazer sexo é doença psiquiátrica. Aprendi que juntar VACINA com VAGINA é muito engraçado.

Aguardemos os próximos Dia das Mães, Dia dos Namorados, Finados e o que a escatologia nos brindará. Os donos da lojinha já nos alertaram que vamos nos surpreender. Pelo jeito iremos morrer de rir ... e, quem sabe, comemorar de novo!

Em tempo, pra quem não deu um Google: 1) misogenia: oriunda da união entre os termos gregos “miseo” e “gyne”, cujos significados são respectivamente ódio e mulheres, a palavra misoginia é usada para definir sentimentos de aversão, repulsa ou desprezo pelas mulheres e valores femininos; 2) escatologia: relativo ao estudo dos excrementos ou à excreção.

Ficou claro, agora?

 

 

Professora Maria Angela Coelho Mirault é Doutora e Mestre pela PUC de SP, em Comunicação e Semiótica: Signo e Significação das Mídias

Campo Grande, MS, 29.03.2

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

QUEM VEM ANTES PREVALECE NA FILA DO PÃO

 Em tudo se pode ter como conselheira idônea, apenas uma Lei: A Lei da Ordem. Está tudo certo, já reverenciava o velho samba “Tudo está em seu lugar... graças a Deus, graças a Deus!” Verdade pura, não aprendida, óbvia: o mau governo – o bom governo; o bom político – o mau político; o corrupto e o corruptor, o explorado e o explorador estão cumprindo uma Única Lei, a Lei da Ordem, que se imporá, depois da Desordem, essa, sim, momentânea; porque não é lei. Feio, né? É. Mas, verdadeiro. A Teoria do Caos demonstra e explica direitinho “esse absurdo”: tudo que aparentemente está em desordem é apenas um estágio anterior à Ordem. Outorgas foram demandadas e atendidas; demandas estão sendo cumpridas; não caíram do céu – ou, caíram, sim, do céu. Tudo está certo. Plantio e colheita, também, refletem essa Lei: “ajoelhou? Vai ter que rezar”! “Pau que dá em Chico, dá em Francisco”! E, porque a Ordem é magnânima e um categórico universal; nada a poderá derruir. Estudar astrofísica, astronomia, cosmografia ajuda? Ajuda.

 Derivadas dessa lógica, mais três Leis emergem e regem a vida. A Lei da Hierarquia é a primeira: tudo o que veio antes, em primeiro está. E, nisso reside o seu lugar. Quem chegou antes, pertence antes: primeiro filho; primeiro marido; primeiro namorado; primeiro tudo. Aos primeiros “toda honra e toda a glória”, as quais os segundos, terceiros e milésimos necessitam reconhecer e acatar. É imperativo. Filas são metáforas dessa Lei e de fácil entendimento. Da Lei da Hierarquia deriva (ou parelha) a Lei do Pertencimento. Quem chegou antes tem o seu lugar indelegável. É seu o direito de ali estar e pertencer; é ímpar esse seu lugar. O segundo filho não pode ocupar o lugar do primeiro; o quarto marido têm de reconhecer o lugar dos três que o precederam, para poder pertencer ao seu, circunstancial e momentâneo, na fila do pão.

Bert Hellinger – o decodificador e sintetizador dessas leis - fala muito seriamentes sobre isso: todos com quem tivemos um relacionamento afetivo-íntimo, por exemplo, fazem parte e estão realmente na fila dos ocupantes do seu lugar naquela fila; tira-se da vida, do pensamento, mas, eles continuam lá. Ele diz isso, e, as moças ficantes se apavoram. Mas, é da Lei: todos fazem parte. E, aí, como fica? Fica como está, dentro da Lei maior, da Ordem; cada qual no seu lugar. O passado não é tão longe assim. E, aí, o que é que eu faço pra me livrar “daquela praga”? Olhando a “praga”, reconhecendo sua presença, respeitando o seu lugar e despedindo-se, sinceramente: “Eu respeito a história que tivemos; respeito o seu destino; fico - agora que o reconheço - com o que me pertence e deixo com você o que lhe pertence. Agora, posso seguir para a vida”. Ponto! Com sinceridade, claro, cortando laços, reconhecendo aquele lugar de passível sucessão, mas,  inocupável.  Se eu os vejo, os reconheço e os respeito, posso dar o lugar devido ao “próximo”!  seja esse o terceiro, o décimo, ou centésimo lugar. O mesmo cuidado deve-se ter com a Família de Origem – é, aquela que nos trouxe a esse mundo. Ninguém precisa “amar”; “viver”; “coabitar” com a sogra (mãe do outro), ou com o sogro (pai do outro). Mas, todos têm como dever, vê-los, acolhê-los, reconhecê-los, respeitá-los, e, se, possível um upgrade, honra-los... Daí, tocar a vida. Eles, os medonhos, vieram antes. Seu marido/esposa já foi o bebê de alguém; humanos ainda não nascem de chocadeira. Esses seres de origem só querem ser vistos, reconhecidos e ponto final. Filhos, genros e noras podem “olhar” para trás, com gratidão, e, seguir adiante, é Ordem da Vida, sem precisar exilar e excluir ninguém. O reconhecimento, em verdade é um derivativo dessas leis trazidas até aqui: Ver, Reconhecer, Respeitar, Honrar e Agradecer não são apenas verbos, são sinalizações para se seguir sem remorso, culpa, ingratidão e cumprir a Lei Primeira.

Se eu ocupo o “meu” lugar na fila; eu pertenço a esse lugar que é apenas meu. Se cada um souber o seu lugar na Lei da Ordem (hierarquia e pertencimento) encontrará o seu lugar na Vida. Pronto? Não! Para que a Ordem impere, porém, necessário reconhecer a terceira Lei – derivada da Lei Maior da Ordem - a Lei do Equilíbrio: o Bom Dar e o Bom Receber. Se eu recebo, eu retribuo com igualdade; com isso, eu cumpro a lei. Ninguém deve dar de mais nem receber de menos! Em tudo, principalmente, no quesito relacionamento: afeto, amor. Quem dá de mais, ou de menos, fere a Lei do Equilíbrio que traz implícita a inequívoca Lei da Igualdade. Ninguém é mais do que ninguém. Se eu dou de mais, eu me coloco acima de quem recebe. Eu me arrogo à prerrogativa de ser o que “pôde” dar. E, podendo dar, eu insiro uma mensagem oculta de que o outro recebe porque é menor. Daí as trocas igualitárias do escambo: eu dou, eu recebo; você me dá em troca, em qualidade, o mesmo que lhe dei. Retribuição é sagrada; porque é Lei. Seja ela em dinheiro, tempo, trabalho, amor, gratidão, sorriso, oração. Disse um velho e sábio sacerdote: ninguém é tão pobre que não tenha o que dar, nem tão rico que não possa receber. Síntese essa dessa Lei do Equilíbrio. Essa Lei só não vale para filhos, que, só pelo fato de serem concebidos, conhecerem toda a abundância necessária para aportarem a esse mundo, jamais poderão cumpri-la no escambo com seus pais. Sem observarmos Ordem, Hierarquia, Pertencimento, Equilíbrio, continuaremos sem saber ocupar nosso lugar na fila do pão, seja “na rua, na casa, na fazenda”.

Nossa ignorância; inobservância nos mantém deslocados na vida. Não é a toa que estejamos tão alvoroçados no formigueiro: “Alguma coisa está fora de ordem”.

Maria Angela Coelho Mirault

Doutora em Semiótica pela PUC de São Paulo

Rio, 01 de outubro de 2021

quarta-feira, 7 de abril de 2021

LIVE: NUMEROLOGIA E VISÃO SISTÊMICA DO MOMENTO ATUAL DO BRASIL


NÃO PERCA ESSA INFORMAÇÃO

Em meu percurso de  Doutoramento, na PUC de São Paulo,  tive a oportunidade de desenvolver minha Tese A CULTURA COMO RUÍDO DA COMUNICAÇÃO, à luz dos teóricos russos (Lotman) e sob a visão Sistêmica. Na ocasião, colocando em estudo e análise minha frustrada experiência como Coordenadora de Relações Púbicas e Cerimonial do Governo do Estado (2º. Escalão d governo, à convite – na ocasião coordenava o curso de Comunicação Social da Universidade Católica) , quando o Partido dos Trabalhadores assumiu o poder estadual, no governo Zeca do PT, por brevíssimos 4 meses (preciso adaptar e publicar esse livro), e sob a temática sistêmica, pude chegar a conclusão a que cheguei. Sob o mesmo olhar, fiz minha formação em Constelação Familiar (Bert Hellinger), algo, também, muito fantástico.

Compartilho, com lucidez, esse vídeo fantástico que discorre a História do
Brasil sob esse olhar sistêmico. IMPERDÍVEL!

O canal Astrologia Sistêmica tem o renovado prazer de receber para uma live o numerólogo Marco Aurélio Ramos. A atual crise mundial e, em especial, o momento dramático que vive o Brasil pedem para uma reflexão e visão de caráter sistêmico para entendermos as reais origens de toda essa confusão em que nos metemos e quais as perspectivas de futuro. Marco Aurélio Ramos atua há 25 anos fazendo mapas pessoais e empresariais e dando consultoria empresarial com o uso da numerologia e Constelações Organizacionais.


terça-feira, 18 de agosto de 2020

Que Signos são esses

Eu sei que existem mulheres vítimas de companheiros implacáveis, que sofrem toda uma vida, por medo, imposição, incapacidade física e psicológica de se defenderem; vergonha da sociedade, até. Eu sei dos sofrimentos inenarráveis da dor que sangra um coração muito antes do primeiro soco e dos arroxeados das pancadas, das fraturas expostas, das feridas rasgadas, do sufocamento e da morte. Mulheres são frágeis em suas dores ocultas e mascaradas, que ninguém vê. Fortes, contudo, na luta pela sobrevivência; nas dores do parto, semeando o amanhã. Quantas dilaceram sua alma, nos pedaços que vendem de si, nas violências e estupros aos quais se submetem e se entregam, no açougue dos prazeres? Mas, também vitimadas por “maridos”, “namorados”, “amantes”, em um mundo tão obscenamente indecente e sem qualquer atributo de amor?

Um paradoxo médico-legal colocou em xeque as frias leis do país no quesito pena-de-morte, escancarando nossa hipocrisia! Um assassinato foi cometido pela ciência, por médicos que pronunciaram o Juramento de Hipócrates, quando colaram grau, e consideraram-se aptos a cumprir a Lei no limite estreito entre Vida e Morte, Um ser humano, quase pronto para nascer, gestado durante 22 semanas, teve sua vida interrompida  pelo procedimento de “morte-fetal” (injeção de cloreto de sódio no coração sadio, daquela vítima indefesa e sem culpa). Uma vida, sim! Gerado, sim, durante a prática sucessiva e criminosa - no corpo e na alma de uma criança de dez anos - que ninguém protegeu; ninguém viu ao longo de quatro anos. Duas vidas infantis destruídas, de qualquer forma!

É signo de um mundo, indignamente, real! Signo de um Tempo assustador, que bate em nossa cara, enxovalhando toda raça humana.  

Que mundo é esse que não se remedia, que não aprende? Milhões de mortos pela Pandemia, de março pra cá, não o ensinou, não o educou, não o fez refletir. Nas casas, nos guetos, nas ruas, o mesmo ar, antes livre e abundante, que falta aos pulmões, mata ricos e miseráveis; todos, dolorosamente.  

Não. Não foi a Pandemia que enlouqueceu esse mundo; é a depuração do que está no lodo obscuro e oculto de nossas sombras, que emerge, e, está acontecendo agora! O mundo já enlouquecera; estávamos e estamos todos acometidos, em menor ou maior grau, desse odor mal cheiroso e nauseabundo, acumulado e registrado nas teias da vida. Dizem os grandes sábios de corrente espiritualista que nós, seres divinos, imortais, invencíveis e indestrutíveis que somos - porque somos a centelha do Criador - estamos no lugar certo, na hora – aziaga - certa, com a sociedade certa; escolha essa que fizemos ao adentrarmos aos mistérios da vida. Quem sabe o que andamos plantando, como semeadores da sociedade, ao longo dos milênios? Quem olhou pra trás e viu, mesmo, a luta, a crueza da vida, as dores de todos os que nos antecederam? Nativos e imigrantes, escravos, senhores, capatazes (ah! os capatazes!) todos, em sua imensa maioria, absolutamente, miseráveis. Somos descendentes e elos de uma sagrada corrente milenar. Pequenos elos, nessa cadeia infinita, proporcionada por nossa ancestralidade, estamos aqui e agora; somos o que somos e quem somos hoje. Somos o fracasso, ou o sucesso daqueles, que vieram antes! Somos e fazemos tudo sob o olhar vigilante, doloroso, envergonhado ou compassivo dessas testemunhas. E, nós, seres egóicos, imersos em nosso odioso egocentrismo, ignorantes, ainda, não os “vemos” em nós; não os reconhecemos em nós, não os honramos, nem os respeitamos em toda a árdua caminhada que trilharam. Não. Não há inocentes nessa História nem nesse Tempo. Do mesmo modo, não há vítimas nem culpados. Somos todos irremediavelmente iguais, trilhando o mesmo caminho, embarcados no mesmo barco, atravessando a mesma tempestade que só tende aumentar. 

O Planeta não tem plano B. Se enlouquecemos, se somos vítimas e perpetradores, não importa mais imaginar qual nosso lugar da fila; e, breve partiremos, na Hora do Ajuste com a Grande Lei. Que os adormecidos de quem sejam, porquê  são, para que servem, continuem aumentado seus débitos no campo do inefável, desvalorizando suas moedas que “as traças não roem”, ou, que, despertem de vez. Escolhas! Decisões! Caminhos!

Enquanto minha Alma sufocada de dor chora pelas duas vítimas aviltadas e violentadas, também chora por nós. Cessemos nossas dores; curemos nossas feridas.  Que crianças - que toda riqueza da Terra não vale a vida de uma que seja - tenham paz e futuro no mundo depois de nós. Que meninas e meninos (e bebês nascituros) sejam preservados e não necessitem se tornar uma mera opção legal, sujscetíveis a viver, ou a morrer, em nome da Lei. Que não precisemos sofrer tanto, meu Deus! É hora da Luz! Luz nas Almas, que é o que mais importa nessa hora. Chega de tanta dor. Prossigamos, além...brilhemos nossa Luz.

Maria Angela Coelho Mirault 

Professora Dra. em comunicação e semiótica pela PUC de São Paulo

Terapeuta de PICS




quarta-feira, 18 de março de 2020

Vamos falar de Deus sim



É forte, mas, vamos lá. Sou religiosa, ou seja, aquela que crê na existência de um Ser Superior Onipotente, Onisciente e Onipresente: Força, Ordem, Presença, Equilíbrio, Sabedoria, Justiça, Amor, Misericórdia.  Sou também uma pesquisadora de sentidos semióticos em vigência no ecossistema cultural que compartilhamos; o que me habilita – me impulsiona - a tecer essas considerações, à luz de uma e de outra “verdade”.
Acertados em quem vos fala, penso que, talvez, esses atributos principais sobre o conceito que temos a respeito de Deus e da vida espiritual nos unam muito mais do que nos afastem, mesmo perfilados a esse ou aquele grupo (ou, dogma) religioso.
 Por óbvio, desde agora, que fique claro; não creio no Deus barbudo, corroído pela vingança, melindre e cobrança; tão impregnado de defeitos quanto nós. Muito menos no Deus do escambo; chiliquento e caricaturizado e enaltecidas nas obras hollywoodianas sobre o Velho Testamento; aquele Sujeito que manda pestes, ventos, tempestades; matar e sacrificar sua própria criação, ao sabor de sua ira. Vade retro! Esse Cara não nos serve, agora! Não nos serve porque, não nos conhecendo, como trogloditas espirituais que ainda somos, nos cobra e nos ameaça  com o peso pesado do inferno, ou do mercado. Não, para minhas concepções religiosas (de religare) e acadêmicas, esse ser não tem um Iped de cobranças de gerenciamento de pecados, nem de conta bancária de dízimos de bilhões de mortais. Esse não é!
Acertados até aqui, esse Deus de agora e em quem necessitamos acreditar não nos quer o jugo do Mal; não nos enviou a praga mundial do Corona-vírus, para dizimar sua criação. Esse Ser Supremo Onipresente, Onisciente, Onipotente alheio ao seu poder,  simplesmente, outsider, não pode estar assistindo nosso ranger de dentes lá do seu troninho, com seu indefectível caderninho de anotações. Ele É e Preside a Ordem, e, Ordem Ele terá. Seus desígnios e sua Ordem prevalecerão. Independente de nossas velas, nossos dízimos, nossos cultos, nossa pífia intervenção, essa Ordem independe de nós e a tudo, rege e preside. A Onipotência tudo pode. A Onisciência tudo sabe, a Onipresença a tudo e a todos acolhe.  Não somos poeiras irreconhecíveis de nosso Criador; temos lastro, pera lá!. Temos histórias que transcendem a esse lugar, esse agora, fadados a extinguir-se logo ali. Somos seres estelares, com propósitos, com projetos e planos divinos inscritos em nós. Somos Deuses (todos), já nos prescrevera o Mestre dos Mestres.
Nessa hora que tudo, tudo...tudo muda, precisamos, mais do que nunca, nos perguntarmos se o deus que nos venderam é o Deus que merecemos e de que precisamos. Muitos partirão na ignorância disso, o que já é uma lástima. Quem sabe seja hora de despertar, cutucar nossas crenças, as verdades paranoicas, que nos limitam e nos colocam como coadjuvantes de nossas próprias vidas.
O Deus Maior, Supremo e que está Presente, que Tudo Sabe, Tudo Pode está dentro de cada um de nós. É hora de olhar pra dentro. Ele (em nós) sabe tudo. Ele (em nós) pode tudo, ele (em nós) está em tudo. Por tanto - sem permitir que o pânico e a descrença nos dominem – creiamos: Ele está aqui; agora, nesse momento fatídico de profundas mudanças culturais em todo o planeta. Precisamos, sim, falar de Deus e nos perguntarmos, a que Deus nos mantemos subjugados nessa hora. O Deus de agora É. O Deus de agora Está. O Deus de agora Sabe.  Saber é muito mais do que crer. Caminhemos. Não estamos á deriva. Maktub! O que tiver de ser será. Alguns de nós já se voluntariaram, para essa partida pandêmica.  Percrustemos o mais profundo de nossas consciências , o quanto antes. Façamos, por tanto, a nossa parte! Sobrevivamos,  com a Onipresença, a Onisciência e a Onipotência de Deus.

Maria Angela Coelho
Professora Doutora em Comunicação e Semiótica PUC/SP
Terapeuta em Práticas Integrativas e Complementares á Saúde
http:mamirault.blospot.com

terça-feira, 10 de março de 2020

Quem tem tempo aí pra vender



Levanta a mão quem tenha um tempinho pra escambiar com alguém. Ninguém o tem. Moeda igualitária que todos recebemos, vale mais do que o dólar, do que o euro ... do que o Palácio de Versalhes! O tempo é a única moeda que, incompatível com o mercado, nos pertence; nos é dada e nos é tomada, muito além de qualquer possibilidade de interferência, gerência, pretensão e ganância de nossa parte. Moeda essa que costumamos desperdiçar, dia-após-dia; noite-após-noite, ao longo do nosso curto tempo de vida. Não, nós não temos tempo; é o tempo quem nos tem.  Belo-dia... bela-noite ... bela-hora, sem aviso prévio, sem mais nem menos – totalmente fora dos nossos propósitos – nossa sacola quedará vazia.
Hoje, consigo ver, em cada coisa que faço, um pedaço do meu tempo que se esvai; parte significativa das moedas que recebi; pedaços insuperáveis da minha vida. Tudo nos custará o desperdício e o desgaste de nosso valioso tempo.  Serão os filhos - cujos cuidados terceirizamos – que crescem, se criam ao largo e ao longe de nós; ausência, cuja consequência,  moeda nenhuma será capaz de resgatar, enquanto colocamos nossa única e real riqueza, ao pregão do mercado.
Há um filme fantástico, lançado em 2011, que nos faz refletir sobre os significados dos pequenos segundos com os quais se esvaem nossas moedas. Seríamos mesmo pessoas donas e senhoras do nosso tempo, e, por consequência, do nosso destino? Seríamos realmente livres e capazes de gerir esse único e legítimo capital depositado, diariamente, em nossa conta bancária da vida?
O filme Os Agentes do Destino (The Adjustement Bureau) foi baseado num conto de ficção científica, do gnóstico escritor Philip K. Dick (a.k.a PKD). O protagonista (Matt Damon) é um derrotado candidato ao senado. Enquanto amarga sua derrota, tem um encontro fortuito com Elise (Emily Blunt); vivem uma noite esplêndida, e, apaixonam-se. Toda a trama decorrerá com o intuito de demonstrar a luta que terão de travar, para se tornarem senhores do próprio tempo, e, por conseguinte, dos próprios destinos.
Os protagonistas não farão outra coisa do que tentarem enganar os agentes do destino; uma espécie de anjos, que farão de tudo para que esse romance não interfira no planejamento divino estipulado para que Davis venha a cumprir o que lhe era propósito de vida.  Fogem... fogem... fogem, tentando ludibriar a ação desses emissários divinos.  Capturado, descobre que a vida - nas mais comezinhas ações - é um percurso já traçado segundo os planos determinados. Assim, esses agentes seriam os responsáveis por impedir que seus tutelados tomem caminhos  distintos do que já fora planejado .
Sem dar spoiler, o filme procura abordar a ideia de que, por não sabermos utilizar bem o nosso tempo, gerenciar nosso destino, necessitamos, ainda, de tutores, planejadores e supervisores que não nos deixem fugir do programa elaborado por, e, em instâncias maiores.
Buscando trazer, também, a mensagem de que sempre será possível obter-se uma abertura para  o (tão falado) livre-arbítrio, o filme não nos deixa pessimistas; muito pelo contrário, proporciona-nos bela reflexão. Valerá, inclusive, muito a pena refletir: (1) Porque, nos habituamos a gastar nossas moedas, dia após dia, esvaziando nossas próprias sacolas todas as noites, sem que nos perguntemos o que fizemos com o tempo que desperdiçamos? (2) Ou, o que fizemos com nossa única riqueza no dia que passou?
Fica a dica (do filme e do tema abordado): o tempo se esvai silenciosa e inexoravelmente, a cada segundo que passa. Afinal, quantas moedas ainda temos em nossas sacolas? Isso também ninguém sabe. Reflitamos, por conseguinte, se estamos tentando, inutilmente, vender nossas próprias moedas, trocando-as pelo vil metal!

Maria Angela Coelho
Professora Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
Terapeuta em Práticas Integrativas e Complementares à Saúde.
http://mamiraut.blogspot.com
11.03.2020