Nem o Bial nem a emissora que oferece o espetáculo dantesco, à família brasileira, na hora do jantar, pode ser a única responsabilizada pela bizarrice do programa de maior audiência da televisão brasileira. Seu aval vem da audiência que o povo lhe confere. Essa é uma matemática simples.
Expressar, difundir e intercambiar ideias sempre foram necessidades intrínsecas à sociedade. A liberdade de expressão é um direito preceituado pela Declaração Universal do Direito do Homem (1948). Nossa Constituição (1988) lavra ser “livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença”. Sob esses dois princípios atribuem-se à mídia em geral – e, em particular, à imprensa - o papel e o dever socioeducativo de intermediar o fluxo das mensagens informacionais para que, livremente, possa o homem formar o seu juízo de valor, diante dos fatos.
A imprensa - palavra cujo significado vem de "prensa móvel" - surgiu há muitos milênios como um artefato para suprir a necessidade humana de informação. O estabelecimento de uma função social à imprensa deu-se a partir de três grandes movimentos revolucionários e paradigmáticos: na Alemanha, por volta de 1495, com Gutemberg, subsidiando a Reforma Luterana e popularização da Bíblia; no século XVIII, durante a Revolução Industrial; e, de fato, sob um alvará libertário, por ocasião da Revolução Francesa (1879), com a emersão de uma imprensa revolucionária e opinativa junto à burguesia, naquele momento.
O século passado viu surgir uma nova e potente diversificação dos canais informacionais trazidos pelo rádio e pela televisão. Em atendimento a um nascente mercado consumidor, a propaganda e o marketing passaram a influir, ideológica e economicamente, nos aparatos midiáticos, inaugurando uma cultura (e um consumo) de massa, na qual consumo e consumidor tornaram-se alvos de suas mensagens.
O advento das mais recentes tecnologias da informação assinalou nova revolução, ao oferecer - por intermédio das mídias digitais e todo seu aparato inovador e renovador - ao, antes, receptor passivo, novas perspectivas de compartilhamento e gestão da informação. Atualmente, vivemos uma revolução mais radical, irreversível e paradigmática, trazida pela potencialidade quase infinita do uso da internet.
Ora, em vistas desse breve relato, por que, simplesmente, imputar a esses aparatos midiáticos (seus produtores e produções) a responsabilidade pela (má, ou baixa) qualidade da informação (?) veiculada? As mídias expõem, em mensagens absurdamente caricaturadas, os valores aceitos, comungados, preconizados e institucionalizados - no âmbito das normas, procedimentos, práticas e costumes - de determinada época por uma determinada sociedade.
É fato que a mídia em geral - utilizando-se das prerrogativas universais e constitucionais de liberdade de expressão, deixa lacunas (morais) no cumprimento do seu papel socioeducativo. Porém, a mídia não cria, não inventa, não abduz seu consumidor. Ela, simplesmente, traduz, reflete, ecoa desejos e práticas, antes, adotadas e circulantes no espaço da cultura de um povo. O alto índice de audiência do programa televisivo Big-Brother-Brasil, e toda sua repercussão é exemplo disso. A fala do jornalista Pedro Bial, veiculada pela revista Veja (18/01/12) sublinha isso. Afirmou, ele: “... tive de me despir da condição de jornalista e ser um Zé Mané junto com os outros”. De fato, uma mídia, realmente, livre e consciente do seu papel social auxiliaria muito à aniquilação dos “zé-manés” a que se refere. Uma imprensa responsável por sua função social poderia, sim, ajudar a promover a revolução que muitos de nós almejamos; a revolução da consciência crítica, do juízo de valor, do discernimento e do critério sobre o que deve, ou não, vigorar como princípio ético e estético. Não havendo essa reflexão, somos todos “zé-mané”, refletidos nessa estética de horrores, que nos retrata de forma tão vil, tal como (ainda) somos. Contudo, é preciso que reconheçamos: os estupros (?!), orgias, futilidades, aberrações e bizarrices ofertados noite após noite pelo famigerado Big Brother Brasil têm a nossa assinatura, a nossa cara, o nosso gosto e, principalmente, conta com o aval da nossa audiência e da nossa consciência. Mudemos, pois, para que o reflexo da nossa imagem se transfigure, pois, por enquanto, somos todos muito feios, muito pouco éticos, quase nada estéticos.
Maria Ângela Coelho Mirault - Doutora e Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
mariaangela.mirault@gmail.com
XPTO
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terça-feira, 17 de janeiro de 2012
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
CATALÉPTICOS E ANESTESIADOS COMEMORAMOS O NATAL
Ufa! O pior já passou, mas, ainda é Natal. Tem ressaca, preguiça, árvores e luzinhas acesas, ofertas, presentes inúteis ainda ensacados, restos da ceia, peru na geladeira, bebidas não consumidas e desperdiçadas no decorrer da semana. Mantendo o estado de letargia, aguardamos o réveillon para que, novamente, bebidas, ceias, fogos de artifícios, retrospectivas, voltem a anestesiar e consumir nosso precioso tempo, blindando nossas verdadeiras necessidades, privações e preocupações com o mundo real.
Somos presas fáceis da praga do consumismo. Somos presas fáceis da alucinação. Somos presas fáceis da postergação. Anestesiados pelos apelos midiáticos, só iremos acordar mesmo depois do Carnaval. Mas, antes, passaremos pelo 12º. big-brother, quando, então, teremos em quem canalizar nossa raiva, exercitar nosso critério de julgamento e tripudiar nossos semelhantes enjaulados para o gaudio do populacho e dos anunciantes. A rede vai cuidar para não arrefecer esse estado cataléptico; que se exploda o mundo. Só, então, em alguma manhã de março, ao nos darmos conta do tamanho da nossa dívida, da realidade da nossa inadimplência, olharemos de frente a vida real e, pela necessidade premente de sobreviver, espremeremos salários (este ano, particularmente, venderemos votos) e pagaremos, com suor e sangue, a exorbitância dos juros, ao longo de todo o ano, para dar conta do desvario de final e início de um novo ano. É sempre assim.
Não tem jeito, tento sempre reprimir esse sentimento de aversão ao natal como festa de consumo, de falsos valores e de genéricos votos de felicidades. Muitas vezes me peguei pensando em "como sou uma pessoa má, sem sentimentos de confraternização e coisa e tal", mas, este ano decidi assumir isso. Enfim, não há meio de gostar das alucinógenas comemorações natalinas, nem, tampouco, das do ano novo, na atualidade; que fazer? O certo é que não gosto – pronto - falei. Poucos de nós têm o verdadeiro significado das datas festivas; alguns as comemoram com sofreguidão e insanamente, enquanto, milhões sofrem a agonia da solidão, da doença, da carência, da ausência. Para esses, este é um tempo de depressão, de amargor e desconsolo. E nesse estado, a dor fica maior, a desigualdade econômica e social, mais cruel, a festa lá fora apunhala sentimentos de perda e as ausências dilaceram mais ainda as feridas do coração. Esse paradoxo me incomoda e não me permite desfrutar, com consciência tranquila – e alienada - e o coração festivo, a festa, a ceia, os presentes. Então, prefiro manter o prumo, compartilhar a realidade que avassala a vida de todos nós, procurando sair desse emaranhado de pisca-piscas - papai-noeis degradantes - fogos de artifícios e derivados natalinos. E, mais: convicta de que não sou doida, nem má, nem uma pessoa insensível. Num mundo de expiação e de provas como o nosso, em que a dor é maior do que o prazer, creio até que sou coerente e sã, assim como sei, também, que, no fundo de suas essências, muitos compartilham esses sentimentos e essas reflexões.
Mas, vamos lá deixar de ser chata nessa tentativa de estabelecer esse choque de ordem, porque você não tem obrigação nenhuma de pensar como eu. Então, se puder, mantenha a luzinha acesa e a "alucinação" do Natal nos dias que virão em 2012. Que, realmente, o nascimento do menino Jesus tenha significado em sua vida e que possamos, na luta diária da sobrevivência e do crescimento moral e espiritual, que teremos de enfrentar, obter sucesso em nossas conquistas diuturnas e cotidianas. Assim é que lhe desejo, de mente aberta e lúcida, coração afetuoso (mas, sem sininhos nem músicas ofuscantes), um permanente Natal em sua vida. Que, no balanço do ano que finda, a somatória seja de êxitos superando todos os fracassos e decepções cotidianas. E ainda desejar, com o mais profundo respeito... Feliz ano novo.
Maria Angela Coelho Mirault – é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
Mariaangela.mirault@gmail.com
Somos presas fáceis da praga do consumismo. Somos presas fáceis da alucinação. Somos presas fáceis da postergação. Anestesiados pelos apelos midiáticos, só iremos acordar mesmo depois do Carnaval. Mas, antes, passaremos pelo 12º. big-brother, quando, então, teremos em quem canalizar nossa raiva, exercitar nosso critério de julgamento e tripudiar nossos semelhantes enjaulados para o gaudio do populacho e dos anunciantes. A rede vai cuidar para não arrefecer esse estado cataléptico; que se exploda o mundo. Só, então, em alguma manhã de março, ao nos darmos conta do tamanho da nossa dívida, da realidade da nossa inadimplência, olharemos de frente a vida real e, pela necessidade premente de sobreviver, espremeremos salários (este ano, particularmente, venderemos votos) e pagaremos, com suor e sangue, a exorbitância dos juros, ao longo de todo o ano, para dar conta do desvario de final e início de um novo ano. É sempre assim.
Não tem jeito, tento sempre reprimir esse sentimento de aversão ao natal como festa de consumo, de falsos valores e de genéricos votos de felicidades. Muitas vezes me peguei pensando em "como sou uma pessoa má, sem sentimentos de confraternização e coisa e tal", mas, este ano decidi assumir isso. Enfim, não há meio de gostar das alucinógenas comemorações natalinas, nem, tampouco, das do ano novo, na atualidade; que fazer? O certo é que não gosto – pronto - falei. Poucos de nós têm o verdadeiro significado das datas festivas; alguns as comemoram com sofreguidão e insanamente, enquanto, milhões sofrem a agonia da solidão, da doença, da carência, da ausência. Para esses, este é um tempo de depressão, de amargor e desconsolo. E nesse estado, a dor fica maior, a desigualdade econômica e social, mais cruel, a festa lá fora apunhala sentimentos de perda e as ausências dilaceram mais ainda as feridas do coração. Esse paradoxo me incomoda e não me permite desfrutar, com consciência tranquila – e alienada - e o coração festivo, a festa, a ceia, os presentes. Então, prefiro manter o prumo, compartilhar a realidade que avassala a vida de todos nós, procurando sair desse emaranhado de pisca-piscas - papai-noeis degradantes - fogos de artifícios e derivados natalinos. E, mais: convicta de que não sou doida, nem má, nem uma pessoa insensível. Num mundo de expiação e de provas como o nosso, em que a dor é maior do que o prazer, creio até que sou coerente e sã, assim como sei, também, que, no fundo de suas essências, muitos compartilham esses sentimentos e essas reflexões.
Mas, vamos lá deixar de ser chata nessa tentativa de estabelecer esse choque de ordem, porque você não tem obrigação nenhuma de pensar como eu. Então, se puder, mantenha a luzinha acesa e a "alucinação" do Natal nos dias que virão em 2012. Que, realmente, o nascimento do menino Jesus tenha significado em sua vida e que possamos, na luta diária da sobrevivência e do crescimento moral e espiritual, que teremos de enfrentar, obter sucesso em nossas conquistas diuturnas e cotidianas. Assim é que lhe desejo, de mente aberta e lúcida, coração afetuoso (mas, sem sininhos nem músicas ofuscantes), um permanente Natal em sua vida. Que, no balanço do ano que finda, a somatória seja de êxitos superando todos os fracassos e decepções cotidianas. E ainda desejar, com o mais profundo respeito... Feliz ano novo.
Maria Angela Coelho Mirault – é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
Mariaangela.mirault@gmail.com
sábado, 19 de novembro de 2011
A PATÉTICA E INSISTENTE VOLTA DOS MORTOS-VIVOS
Chega a nos parecer patética a ressuscitação do debate de um assunto morto, cremado, cujas cinzas já se espraiaram ao vento. Falo da obrigatoriedade do diploma de bacharel em comunicação social, na habilitação de jornalismo, para o exercício da profissão. Já que o debate retorna a nos assombrar, vamos lá. O Decreto-lei 972/69 que regulamenta a profissão já havia sido revogado, por direito e de fato, pela Constituição Federal, em 1988, ao determinar em seu artigo 5º e 220 “ser livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de COMUNICAÇÃO, independente de censura ou licença”. Revogado, também, fora pelo Decreto-lei 9.610/98 – Lei do Direito do Autor - que qualificou o trabalho jornalístico, de qualquer natureza, como de caráter intelectual, retirando o jornalista da condição de mero prestador de serviços no campo da Comunicação (DL 972/69) para colocá-lo no nível de autor de obra cultural. E, finalmente, foi morto, cremado e sepultado pela decisão do Supremo Tribunal Federal, em 17/06/2009, sob as seguintes (parte) alegações dos Ministros: “Danos a terceiros não são inerentes à profissão de jornalista e não podem ser evitados com um diploma...”; “... foi criado (DL 972/69) no regime militar para afastar, do jornalismo, intelectuais contrários ao regime”; “... a exigência de diploma é resquício do regime de exceção”; “... preservar a comunicação de ideias é fundamental para uma sociedade democrática”; “... restrições, ainda que por meios indiretos, como a obrigatoriedade do diploma, devem ser combatidos”.
A tentativa nazifascista de controlar os processos de comunicação entre o Estado e a sociedade sempre foi um almejo daqueles que lutam única e exclusivamente por suas causas. No Brasil, é icônica a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP, em 27/12/39, pelo Estado Novo, cujo objetivo explícito era o de controlar os meios de comunicação, bem como a propagação ufanista e ideológica do governo Vargas, sob a falsa concepção de que caberia ao Estado, em seu papel de organizador da sociedade, controlar e vigiar a informação.
Durante a ditadura militar, o governo Costa e Silva, além do Ato Institucional no. 5 (AI-5), criou, também, a Assessoria Especial de Relações Públicas – AERP, cujo objetivo era o de centralizar os órgãos governamentais de propaganda, com o intuito de fornecer as “verdades” do governo e conquistar o apreço da opinião pública brasileira. Propagandeando o “milagre econômico”, sob a convocação de um patriotismo exacerbado, obteve pleno êxito durante o governo Médici.
A regulamentação profissional imposta pelo DL 972/69 e a consequente criação dos bacharelados em Comunicação Social, notadamente, no que diz respeito às habilitações em jornalismo, surgiu e se disseminou sob esse viés nazifascista e esse respaldo filosófico-ideológico, que, na prática, busca sustentar a “verdade” deontológica de que seja preciso, necessário, primordial à espécie humana, a existência de um tradutor da realidade, desde que, devidamente regulamentado, sindicalizado e diplomado. Como se fosse possível credenciar-se alguém a tornar-se interlocutor entre o acontecimento e a sociedade leiga. Isso não é possível porque é impossível a isenção na narração do fato vivenciado. Toda expressão é a manifestação de um pensamento a respeito de um evento reelaborado, visto, sermos seres semióticos que detém em seus repertórios codificados do mundo, suas subjetividades e essas intersubjetividades invadem as interpretações e narrativas sobre a realidade. Isso joga por terra qualquer presunção de neutralidade do observador frente ao objeto observado, e, consequentemente, qualquer possibilidade de que, a isenção da notícia pelo viés do jornalista diplomado, se concretize.
Quando se argumenta a favor da ressuscitação da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista e, dialeticamente, se compara essa atividade com outras profissões como a medicina, a advocacia, a arquitetura e a engenharia, deixa-se de dar relevância a uma evidência crucial: enquanto estas - se desregulamentadas - podem auferir danos a terceiros, à outra só causa danos aos que a exercem e pleiteiam uma descabida reserva de mercado. Não é possível que se creia que um diplomado “clínico-geral”, só pelo fato de ter passado (às vezes, muito mal - haja vista os “Biais”) pela faculdade, seja mais competente do que alguém que traduza, com conhecimento de causa, as “verdades” da sua área de especialidade.
Ao se radicalizar em uma questão sabiamente morta, cremada, sepultada como esta, em plena segunda década do século XXI, mantendo-se a opção feita na década de 70, do século passado, em detrimento à liberdade de expressão e manifestação do pensamento e em favor do tecnicismo, ocultando o caráter ideológico-político pelo qual foi criado, chega a ser patético, inconsistente e, antes de tudo, um anacronismo retórico. O mundo gira, velozmente; as mídias, cada vez mais mutantes, convergem ao encontro de todos e cada um de nós, indistintamente; captura os fatos da realidade, em conformidade com as miríades de intersubjetividades, deglutem-na e devolvem-na em imagens e palavras, inundando blogs, sites, redes de relacionamentos, jornais e canais de televisão. Assim, a volta da obrigatoriedade do diploma universitário para o exercício da função tecnicista-funcionalista do jornalismo, nada mais traduz do que um saudosista ranço autoritário da ditadura a serviço do maior poder de restrição e controle sobre a liberdade de imprensa, nos dias atuais. Que, então, os mortos-vivos se mantenham como estão; sepultados.
Maria Angela Coelho Mirault – Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
mariaangela.mirault@gmail.com
A tentativa nazifascista de controlar os processos de comunicação entre o Estado e a sociedade sempre foi um almejo daqueles que lutam única e exclusivamente por suas causas. No Brasil, é icônica a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP, em 27/12/39, pelo Estado Novo, cujo objetivo explícito era o de controlar os meios de comunicação, bem como a propagação ufanista e ideológica do governo Vargas, sob a falsa concepção de que caberia ao Estado, em seu papel de organizador da sociedade, controlar e vigiar a informação.
Durante a ditadura militar, o governo Costa e Silva, além do Ato Institucional no. 5 (AI-5), criou, também, a Assessoria Especial de Relações Públicas – AERP, cujo objetivo era o de centralizar os órgãos governamentais de propaganda, com o intuito de fornecer as “verdades” do governo e conquistar o apreço da opinião pública brasileira. Propagandeando o “milagre econômico”, sob a convocação de um patriotismo exacerbado, obteve pleno êxito durante o governo Médici.
A regulamentação profissional imposta pelo DL 972/69 e a consequente criação dos bacharelados em Comunicação Social, notadamente, no que diz respeito às habilitações em jornalismo, surgiu e se disseminou sob esse viés nazifascista e esse respaldo filosófico-ideológico, que, na prática, busca sustentar a “verdade” deontológica de que seja preciso, necessário, primordial à espécie humana, a existência de um tradutor da realidade, desde que, devidamente regulamentado, sindicalizado e diplomado. Como se fosse possível credenciar-se alguém a tornar-se interlocutor entre o acontecimento e a sociedade leiga. Isso não é possível porque é impossível a isenção na narração do fato vivenciado. Toda expressão é a manifestação de um pensamento a respeito de um evento reelaborado, visto, sermos seres semióticos que detém em seus repertórios codificados do mundo, suas subjetividades e essas intersubjetividades invadem as interpretações e narrativas sobre a realidade. Isso joga por terra qualquer presunção de neutralidade do observador frente ao objeto observado, e, consequentemente, qualquer possibilidade de que, a isenção da notícia pelo viés do jornalista diplomado, se concretize.
Quando se argumenta a favor da ressuscitação da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista e, dialeticamente, se compara essa atividade com outras profissões como a medicina, a advocacia, a arquitetura e a engenharia, deixa-se de dar relevância a uma evidência crucial: enquanto estas - se desregulamentadas - podem auferir danos a terceiros, à outra só causa danos aos que a exercem e pleiteiam uma descabida reserva de mercado. Não é possível que se creia que um diplomado “clínico-geral”, só pelo fato de ter passado (às vezes, muito mal - haja vista os “Biais”) pela faculdade, seja mais competente do que alguém que traduza, com conhecimento de causa, as “verdades” da sua área de especialidade.
Ao se radicalizar em uma questão sabiamente morta, cremada, sepultada como esta, em plena segunda década do século XXI, mantendo-se a opção feita na década de 70, do século passado, em detrimento à liberdade de expressão e manifestação do pensamento e em favor do tecnicismo, ocultando o caráter ideológico-político pelo qual foi criado, chega a ser patético, inconsistente e, antes de tudo, um anacronismo retórico. O mundo gira, velozmente; as mídias, cada vez mais mutantes, convergem ao encontro de todos e cada um de nós, indistintamente; captura os fatos da realidade, em conformidade com as miríades de intersubjetividades, deglutem-na e devolvem-na em imagens e palavras, inundando blogs, sites, redes de relacionamentos, jornais e canais de televisão. Assim, a volta da obrigatoriedade do diploma universitário para o exercício da função tecnicista-funcionalista do jornalismo, nada mais traduz do que um saudosista ranço autoritário da ditadura a serviço do maior poder de restrição e controle sobre a liberdade de imprensa, nos dias atuais. Que, então, os mortos-vivos se mantenham como estão; sepultados.
Maria Angela Coelho Mirault – Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
mariaangela.mirault@gmail.com
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
O QUE QUEREM OS MAURICINHOS E PATRICINHAS DA USP, FUMAR MACONHA, É?
Interessante acompanhar a repercussão que a anárquica invasão e ocupação da USP vem obtendo na sociedade e na imprensa. Protestantes mesclam-se sob os mais variados cursos, nos mais diversos níveis, unidos em uma mesma bandeira de libertinagem. Demorou. Pífias apresentam-se à sociedade todas as instâncias por eles provocadas; da reitoria, passando pelo governo do Estado de São Paulo, pelo Ministério da Educação e seu ministro, pela própria polícia, e, por que não, pelo judiciário. A demora na tomada de decisão, com a qual o episódio foi – e está sendo – gerido, é preocupante e arranha a ordem constitucional de toda uma nação. Denota incompetência e ignorância de todos os envolvidos. E medo, muito medo, principalmente, o medo do ano que vem, já que sabido é que o ministro já é um candidato explícito do PT às eleições municipais, na cidade de São Paulo.
Tanta coisa necessitando de mobilização popular dos jovens e adultos brasileiros: tanta gente que sai de casa para o seu trabalho e não volta, mortos como moscas no trânsito, na mira de um fuzil e tantas desgraças mais; tanta indignação legítima para se indignar, principalmente, pela corrupção que assola o País e emporcalha nossas salas, via TV, respingando em nossas roupas e subindo às nossas narinas; tantas mortes nas calçadas em frente aos hospitais; pela falta de escolas públicas decentes, no roubo à infância brasileira, sem creche, sem pão, sem nada... E esses “estudantes” fizeram o que fizeram em prol de um pseudo-direito que atribuem ter três dos seus colegas de fumar maconha, no ambiente universitário? Poupem-nos o dissabor e a perda da esperança.
Vale ressaltar que, embora, seja referenciada no Brasil e no mundo, a USP nunca foi um oásis de candura universitária; que testemunhem os familiares de filhos perdidos e assassinados em trotes violentos e que volta e meia vem a público. Agora, após a morte de um aluno assaltado no campus universitário, num flagrante registro da insegurança do local e que, como providência absolutamente coerente com a causa, policiamento é requerido e acordado, acadêmicos encontrados fumando um baseado no campus, que sabiam policiado, ainda ganham notoriedade nacional? Mundial? Apoio dos colegas, de seus pais, dos pais de seus colegas, de sindicatos, além da omissão do governo? Onde e em que pé estamos? Tem tanta gente boa emitindo tanta bobagem em defesa desses vândalos, que nos causa espanto e embrulha nossos estômagos.
Não, não se pode permitir a politização desse movimento que nada tem a ver com direitos, com repressão e legitimidade. Pois, agora, que a justiça decide pela reintegração de posse do prédio público ocupado, que sejam punidos, fichados, expulsos do ambiente acadêmico que não souberam respeitar, é tudo que esperam os que têm um pouquinho de racionalidade. Que paguem tudo que destruíram do patrimônio púbico. É tudo o que uma sociedade assoberbada de problemas deve exigir. Ou será que fumar maconha em público já é permitido no Brasil e nem os policiais nem resto da nação brasileira disso sabia? Se pode é já é permitido, então, avisa lá!
O que querem, então, os mauricinhos e patricinhas da USP? Espero que se tornem exemplo, sim. Exemplo do que não se pode e não se deve fazer em um ambiente universitário, com o patrimônio público. Que a sociedade brasileira seja respeitada. Que as autoridades a quem cabe gerenciar essa crise, que já foi longe demais - sem violências de qualquer espécie - tomem as rédeas da situação que já se apresenta insustentável, insuportável. Que o ministro se manifeste com rigor e eficiência, que a polícia aja, que o reitor acorde, que os pais dos anarquistas atuem. Punição para os rebeldes sem causa e sem razão. E que o dinheiro da fiança paga por sindicatos seja restituído vintém por vintém. A luta e o protesto dessas pessoas é ilegítima, ilegal e inconstitucional. Enfim, por que os uspianos que lá não estão não se rebelam também? Por que se omitem e continuam suas vidinhas corretas sem nenhuma alteração.? Acordem! Acorda Brasil.
MARIA ANGELA MIRAULT – Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
Tanta coisa necessitando de mobilização popular dos jovens e adultos brasileiros: tanta gente que sai de casa para o seu trabalho e não volta, mortos como moscas no trânsito, na mira de um fuzil e tantas desgraças mais; tanta indignação legítima para se indignar, principalmente, pela corrupção que assola o País e emporcalha nossas salas, via TV, respingando em nossas roupas e subindo às nossas narinas; tantas mortes nas calçadas em frente aos hospitais; pela falta de escolas públicas decentes, no roubo à infância brasileira, sem creche, sem pão, sem nada... E esses “estudantes” fizeram o que fizeram em prol de um pseudo-direito que atribuem ter três dos seus colegas de fumar maconha, no ambiente universitário? Poupem-nos o dissabor e a perda da esperança.
Vale ressaltar que, embora, seja referenciada no Brasil e no mundo, a USP nunca foi um oásis de candura universitária; que testemunhem os familiares de filhos perdidos e assassinados em trotes violentos e que volta e meia vem a público. Agora, após a morte de um aluno assaltado no campus universitário, num flagrante registro da insegurança do local e que, como providência absolutamente coerente com a causa, policiamento é requerido e acordado, acadêmicos encontrados fumando um baseado no campus, que sabiam policiado, ainda ganham notoriedade nacional? Mundial? Apoio dos colegas, de seus pais, dos pais de seus colegas, de sindicatos, além da omissão do governo? Onde e em que pé estamos? Tem tanta gente boa emitindo tanta bobagem em defesa desses vândalos, que nos causa espanto e embrulha nossos estômagos.
Não, não se pode permitir a politização desse movimento que nada tem a ver com direitos, com repressão e legitimidade. Pois, agora, que a justiça decide pela reintegração de posse do prédio público ocupado, que sejam punidos, fichados, expulsos do ambiente acadêmico que não souberam respeitar, é tudo que esperam os que têm um pouquinho de racionalidade. Que paguem tudo que destruíram do patrimônio púbico. É tudo o que uma sociedade assoberbada de problemas deve exigir. Ou será que fumar maconha em público já é permitido no Brasil e nem os policiais nem resto da nação brasileira disso sabia? Se pode é já é permitido, então, avisa lá!
O que querem, então, os mauricinhos e patricinhas da USP? Espero que se tornem exemplo, sim. Exemplo do que não se pode e não se deve fazer em um ambiente universitário, com o patrimônio público. Que a sociedade brasileira seja respeitada. Que as autoridades a quem cabe gerenciar essa crise, que já foi longe demais - sem violências de qualquer espécie - tomem as rédeas da situação que já se apresenta insustentável, insuportável. Que o ministro se manifeste com rigor e eficiência, que a polícia aja, que o reitor acorde, que os pais dos anarquistas atuem. Punição para os rebeldes sem causa e sem razão. E que o dinheiro da fiança paga por sindicatos seja restituído vintém por vintém. A luta e o protesto dessas pessoas é ilegítima, ilegal e inconstitucional. Enfim, por que os uspianos que lá não estão não se rebelam também? Por que se omitem e continuam suas vidinhas corretas sem nenhuma alteração.? Acordem! Acorda Brasil.
MARIA ANGELA MIRAULT – Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
terça-feira, 11 de outubro de 2011
NENHUMA RELIGIÃO PODE ASSEGURAR A CURA
A crença no sobre-natural sempre esteve presente na história da humanidade. Desde que o homem, buscando compreender a morte, passou a adornar os túmulos dos seus entes queridos, a crença no que possa existir além da vida vem acompanhando sua jornada terrena. Desse modo, crer em deuses, anjos, demônios e espíritos não constitui nenhuma novidade, nem, tão pouco, privilégio dessa ou daquela crença. Não tendo condições de apreender a realidade sobre-natural, esse homem a foi traduzindo de acordo com o seu entendimento, parâmetro, repertório e padrão cultural ao longo dos séculos. Dos Vedas a Bíblia e aos Evangelhos constata-se o registro de manifestações extra-físicas, sob as mais variadas denominações. A tradição judaico-cristã foi a grande responsável pela sacralização ou demonização dessas ações interventoras, provenientes de entidades sobre-naturais, inclusive, em conformidade com os interesses políticos da época; Joana D’Arc foi sacralizada e demonizada de acordo com o poder político absolutista e arbitrário, na França, sob a égide da igreja romana.
De modo geral, as religiões derivadas do cristianismo optaram por manter a ideia secular de forças sobre-naturais, apresentando-as, ora como anjos e santos (espírito-santo), ora como demônios satanizados a influenciar os seres do mundo físico. É justamente nesse vórtice que se pode situar a contribuição do pedagogo e professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869) ao pensamento histórico-filosófico-religioso-ocidental. Buscando o entendimento sobre os fenômenos considerados sobrenaturais, debruçou-se ele em seus estudos. Resultante de sua verificação e de suas constatações depreendeu e extraiu um novo corpo de conhecimento, independente de crenças e de denominações religiosas. Seus estudos - sem que tivesse a pretensão de tudo revelar - levantaram parte do véu que cobre a realidade da vida transcendental. Determina que - seja por ignorância ou incapacidade de compreensão humana - o que se creditava ao sobrenatural nada mais seria do que parte intrínseca às Leis Naturais que regem a vida. Publicando seus estudos e constatações em cinco obras, sob o pseudônimo de Allan Kardec, o ilustre professor derrubou alguns conceitos filosófico-religiosos tidos como incontestáveis a sua época: 1) sim, existe uma causa e um propósito para todas ocorrências da vida, determinando, com isso, a inexistência do acaso; 2) os seres são preexistentes e sobreviventes ao fenômeno da morte; ou seja, a morte não existe; 3) somos todos seres imortais habitantes dessas realidades e em processo contínuo de aperfeiçoamento; 3) sim, o mundo físico e extra físico relacionam-se, portanto, um ente de um mundo pode interferir no outro e, por ser inerente às leis da natureza, o fenômeno nada tem de anormal ou de sobrenatural. Em regra geral, essa poderia ser a síntese do legado de Kardec ao pensamento religioso contemporâneo e direcionado a todas as religiões – ele nunca pretendeu ter seguidores ou constituir segmentos arrogantes da verdade absoluta.
O Espiritismo, hoje, é uma religião constituída, institucionalizada e tem sua fundamentação nas obras de Kardec e em inúmeras outras obras complementares (não só as de Chico Xavier). Suas práticas, derivadas desse conhecimento, são disponibilizadas no que se convencionou denominar de centros espíritas. Nesses lugares (mas, não em todos), onde se deve oferecer o estudo desse legado, e, principalmente, se deve praticar a caridade, busca-se, também, a orientação e a intervenção do mundo espiritual em favorecimento aos que lá vão, assim como todas as práticas religiosas procuram fazer, por intermédio de medianeiros, tradutores, dessas duas realidades. Mas, o Espiritismo não é só isso.
Desse modo, a propagação de que o Espiritismo é capaz de promover a cura de doenças que a medicina imputa como incuráveis denota ignorância a respeito da finalidade do Espiritismo. A fé atribuída e propagada, pela mídia nacional - em matéria de capa – ao ator global que “alia tratamento convencional ao espiritismo” pode até ter seu caráter meritório, posto que sirva de inspiração a outras pessoas que possam estar atravessando o mesmo drama em sua jornada terrena, mas, a expectativa e a promessa de cura de um câncer raro e avassalador pela intervenção espiritual, a qual se submete, é uma falácia. Nada mais nefasto para o próprio Espiritismo do que a difusão insensata dessa promessa de cura. Nenhum intermediador (médium, padre ou pastor) pode garantir isso.
O Espiritismo é, antes de tudo, esclarecimento. E porque esclarece, consola e porque consola, conforta. O Espiritismo não pode ser vendido como mercado de troca, confrontando-se com a Ciência. Não foi o que o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail prenunciou e muito menos o que prognosticou para o campo de conhecimento que legou ao pensamento filosófico-religioso-ocidental-contemporâneo. Não, nem o Espiritismo nem nenhuma outra religião pode assegurar a cura do corpo. O que o referido ator poderá obter por intermédio do Espiritismo será um melhor conhecimento de si mesmo; uma maior compreensão de sua jornada imortal; o consolo de que sua integridade existencial ultrapassará as fímbrias do que denominamos morte. E, se, realmente, estiver bem orientado (e nem todos o são) atravessará esse momento e esse portal com lucidez, confiança, serenidade, compreensão e conforto, e, talvez, por isso, seja capaz de tornar-se o agente de sua cura.
Maria Angela Mirault – Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
mariaangela.mirault@gmail.com
De modo geral, as religiões derivadas do cristianismo optaram por manter a ideia secular de forças sobre-naturais, apresentando-as, ora como anjos e santos (espírito-santo), ora como demônios satanizados a influenciar os seres do mundo físico. É justamente nesse vórtice que se pode situar a contribuição do pedagogo e professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869) ao pensamento histórico-filosófico-religioso-ocidental. Buscando o entendimento sobre os fenômenos considerados sobrenaturais, debruçou-se ele em seus estudos. Resultante de sua verificação e de suas constatações depreendeu e extraiu um novo corpo de conhecimento, independente de crenças e de denominações religiosas. Seus estudos - sem que tivesse a pretensão de tudo revelar - levantaram parte do véu que cobre a realidade da vida transcendental. Determina que - seja por ignorância ou incapacidade de compreensão humana - o que se creditava ao sobrenatural nada mais seria do que parte intrínseca às Leis Naturais que regem a vida. Publicando seus estudos e constatações em cinco obras, sob o pseudônimo de Allan Kardec, o ilustre professor derrubou alguns conceitos filosófico-religiosos tidos como incontestáveis a sua época: 1) sim, existe uma causa e um propósito para todas ocorrências da vida, determinando, com isso, a inexistência do acaso; 2) os seres são preexistentes e sobreviventes ao fenômeno da morte; ou seja, a morte não existe; 3) somos todos seres imortais habitantes dessas realidades e em processo contínuo de aperfeiçoamento; 3) sim, o mundo físico e extra físico relacionam-se, portanto, um ente de um mundo pode interferir no outro e, por ser inerente às leis da natureza, o fenômeno nada tem de anormal ou de sobrenatural. Em regra geral, essa poderia ser a síntese do legado de Kardec ao pensamento religioso contemporâneo e direcionado a todas as religiões – ele nunca pretendeu ter seguidores ou constituir segmentos arrogantes da verdade absoluta.
O Espiritismo, hoje, é uma religião constituída, institucionalizada e tem sua fundamentação nas obras de Kardec e em inúmeras outras obras complementares (não só as de Chico Xavier). Suas práticas, derivadas desse conhecimento, são disponibilizadas no que se convencionou denominar de centros espíritas. Nesses lugares (mas, não em todos), onde se deve oferecer o estudo desse legado, e, principalmente, se deve praticar a caridade, busca-se, também, a orientação e a intervenção do mundo espiritual em favorecimento aos que lá vão, assim como todas as práticas religiosas procuram fazer, por intermédio de medianeiros, tradutores, dessas duas realidades. Mas, o Espiritismo não é só isso.
Desse modo, a propagação de que o Espiritismo é capaz de promover a cura de doenças que a medicina imputa como incuráveis denota ignorância a respeito da finalidade do Espiritismo. A fé atribuída e propagada, pela mídia nacional - em matéria de capa – ao ator global que “alia tratamento convencional ao espiritismo” pode até ter seu caráter meritório, posto que sirva de inspiração a outras pessoas que possam estar atravessando o mesmo drama em sua jornada terrena, mas, a expectativa e a promessa de cura de um câncer raro e avassalador pela intervenção espiritual, a qual se submete, é uma falácia. Nada mais nefasto para o próprio Espiritismo do que a difusão insensata dessa promessa de cura. Nenhum intermediador (médium, padre ou pastor) pode garantir isso.
O Espiritismo é, antes de tudo, esclarecimento. E porque esclarece, consola e porque consola, conforta. O Espiritismo não pode ser vendido como mercado de troca, confrontando-se com a Ciência. Não foi o que o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail prenunciou e muito menos o que prognosticou para o campo de conhecimento que legou ao pensamento filosófico-religioso-ocidental-contemporâneo. Não, nem o Espiritismo nem nenhuma outra religião pode assegurar a cura do corpo. O que o referido ator poderá obter por intermédio do Espiritismo será um melhor conhecimento de si mesmo; uma maior compreensão de sua jornada imortal; o consolo de que sua integridade existencial ultrapassará as fímbrias do que denominamos morte. E, se, realmente, estiver bem orientado (e nem todos o são) atravessará esse momento e esse portal com lucidez, confiança, serenidade, compreensão e conforto, e, talvez, por isso, seja capaz de tornar-se o agente de sua cura.
Maria Angela Mirault – Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
mariaangela.mirault@gmail.com
sábado, 3 de setembro de 2011
GAMBÁ CHEIRA A GAMBÁ
Ela foi absolvida por seus pares. Não há surpresa nisso. Em toda corporação, do Vaticano ao planalto central, dos terreiros às igrejas, dos sindicatos às associações, o espírito de corpo e a comparsividade prevalece. Aliviada, quem sabe, agradecendo aos céus, a lídima e simples “cidadã brasileira”- como se rotulou após a absolvição - contou com a mãozinha dos 265 colegas de trabalho. Foram 265 votos confessos em seu (e no deles) benefício. Não tem jeito: gambá cheira a gambá. O medo da complicação e da exposição do que ainda possa estar na sombra da vida de cada um dos que legitimaram o impedimento da cassação motivou e impulsionou as mãozinhas nervosas, ágeis e escamoteadas debaixo das bancadas de suas excelências, sem deixar marcas, rastros ou pegadas de quem votou o quê. Embutidas nesse placar estão interesses e acordos partidários - já celebrados ou em vias de - com vistas às eleições do ano que vem; a tal da governabilidade também é uma das responsáveis pela absolvição da simples dona de casa flagrada em um ato criminoso e que todos nós cidadãos brasileiros assistimos das janelas eletrônicas de nossas casas. Mas, o que foi que vimos? Vimos uma reunião de quadrilha: três pessoas, uma mulher (a não-cassada) acompanhada pelo marido e um assessor de governo. Os maços de dinheiro, saindo das mãos do funcionário, passando para as do marido, eram condicionados em uma bolsa preta, sob a cumplicidade da mulher. Todos sorriam. Ressalte-se que quem entregava não era uma pessoa qualquer e quem recebia e compartilhava também não. Contudo, o que importa é que ali estava uma quadrilha em ação. Ocorre que, poucos anos depois do fato, a quadrilheira foi eleita e o mote de sua absolvição pelos comparsas de agora é o de que, no flagrante, de um acontecimento criminoso do passado, ela ainda não era uma representante do povo. Mas é.
O que assistimos tanto no vídeo, quanto na sessão de não-cassação foi apenas a confirmação de que “gambá cheira a gambá”, tanto lá como cá. Tanto lá como cá, seus assemelhados se juntam e agem pelas emanações de seus próprios odores. Mas, é preciso que o defendamos, eles não estão lá por acaso, não invadiram a Terra oriundos de Marte nem de Plutão; são terráqueos, brasileiros, nossos concidadãos. Fomos nós, seus compatriotas, quem os pusemos e os mantemos lá. Demos, com nossos votos convictos, vendidos, insensatos, displicentes, ou não, o abono do qual se utilizam para fazerem o que bem querem. Eles, os que estão lá – e aqui – são também nossos assemelhados; nem santos nem demônios, cheirando a gambás, ou não, apenas tão humanos, como nós, mesmo que, muitos deles, da pior espécie. Seja lá como for eles estão e permanecerão lá às nossas custas, sob as nossas barbas e complacências. Mas, já que assim é e está, revisemos então nossos valores e entendamos os valores dos gambás: roubar enquanto se está pensando que ninguém vê, ou grava – o que hoje é quase impossível - antes de qualquer mandato eleitoral, pode. Sob esse aspecto, beira-mares e assemelhados podem candidatar-se, agora, já que cumprem pena e, aparentemente, não cometam mais crimes. O que se constata é que tudo é válido no brasil-político-contemporâneo; assopra que passa. Na verdade, já passou; o povo anestesiado já nem se importa mais com isso, o que importa agora é descobrir quem-matou-salomão-ayala.
Mas, e os que não cheiram a gambá e nem querem saber quem-matou-salomão-ayala vão ficar fazendo e tomando “o cafezinho dos indignados”? Escrevendo artigos como este? Vão apagar a luz depois de “o-astro” e tocar a vida no dia seguinte; esperando as notícias-do-datena, o fantástico-de-domingo? Gambá cheira a gambá e esse odor já chegou ao nosso olfato, impregnando e contaminando nossas vidas. Seremos mesmo uma nação mutante de milhões de gambás levando a vida de big-brother em big-brother, no samba-carnaval-e-cerveja, esperando a copa do mundo e as olimpíadas? Sei não... se a profecia dos maias estiver errada e o mundo não acabar, 2012 será mais um ano eleitoral. Talvez, ainda dê tempo de acordar, espantar os gambás e voltar a acreditar que a vida decente vale a pena. Acorda Brasiiiiillllll!
Maria Angela Coelho Mirault - Doutora em Comunicação pela PUC de São Paulo
http://mamirault.blogspot.com
segunda-feira, 18 de julho de 2011
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