terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Um 2018 pra cada um


            A Semiótica – ciência que dá conta do estudo das representações – nos leva a conceber a realidade não passível de apreensão direta. Para tal, traz implícita a necessidade da intermediação sígnica que a nomine e a signifique. Ou seja, cada ser percebe e concebe a realidade em conformidade com um repertório personificado de significação. O azul do céu não traz em si o seu significado; é objeto de interpretação e representação semiótica. As coisas existem pelo significado que somos capazes de lhes auferir. Nada é o que parece ser; tudo procede de significados que lhes damos. É na condição de um ser simbólico, produtor e interpretador de signos e significados, que o homem concebe e interage no mundo.
            A Física Quântica – ciência que agudiza os conceitos anteriores da Física Clássica – ao trazer a lume a perspectiva de que o fóton - submetido em experimento a um observador - pode atuar, ora como partícula, ora como onda, nos aponta para muitos mistérios a se revelar. Só o fato de que a ação direta do observador seja capaz de modificar a realidade física, muda tudo. Não existe o eu que olha e observa, mais; agora, existe o eu que modifica e interfere no que vê. Assim, a realidade em si não existe, passa a existir sob nossa intervenção e interpretação. Se há Sol lá fora e minhas cortinas estão fechadas, minha realidade co-criada é escura, sombria; peculiar e minha. Desse modo, cada um dos mais de 7 bilhões no planeta tem uma realidade de acordo com sua capacidade de perceber, interpretar, decodificá-la e transformá-la, absolutamente sujeita a sua presença no campo quântico, com o apetrecho de sua cosmovisão, além, obviamente dos filtros provenientes da constituição física que nos confere o arcabouço para estarmos no mundo.
            A Cultura, por sua vez, é o habitat, no qual, inseridos, somos instados a nos relacionar por intermédio de signos e significados apreensíveis, compreensíveis e compartilháveis. É o ambiente ecologicamente semiótico, preexistentes e subsistentes, a nossa curta vida, já pleno de conceitos e de crenças enraizados, de valores, hábitos e comportamentos configurados como verdades, que atravessam gerações. Nosso mergulho nesse vasto caldeirão semiótico, de signos e significações constitui-se no filtro, na lente, pelos quais tateamos na tentativa de compreender o mundo. Somos todos ETs em espaços sistêmicos alosemióticos.
            Bem, se a realidade é uma construção nominada, dependente da semiose de significados peculiares, sob a regência de repertórios pessoais... Se, ela pode ser concebida uma co-criação do observador, que ao modificar o fenômeno que observa, passa a ser dela um participante... Se, a Cultura é a lente que nos circunscreve em um ecossistema de significados não compartilháveis... Se, ainda, a contagem do tempo é convencionada por calendários não unificados, e, apenas parte dos bilhões do lado Ocidental comemora com exaltação coletiva a convenção da passagem do ano, o que será o novo ano para nós?

            Será o que cada um de nós dele o fizermos. Serão bilhões de 2018 - um pra cada um! Vai depender da percepção pessoal de construção da realidade. Vai depender da co-criação nos fenômenos em que se estiver inserido, engajado, participante dos fatos e acontecimentos sob sua “regência”.
            Quem sabe ainda tenhamos tempo de fazer desse pequeno espaço de tempo, que nos levará a nova convenção de outro Ano Novo, um mundo melhor para cada um de nós, respeitando o reinado das peculiaridades do outro; dos sistemas ecologicamente semióticos preexistentes e sobreviventes a nossa quase insignificante intervenção, na certeza de que, de algum lugar, Forças Maiores reconheçam Ordem e Harmonia, nos conferindo a confiança de que podemos fazer desse ano - suscetível a nossa capacidade de percepção, ação e transformação - o melhor. Façamos de 2018, finalmente, um ano absolutamente nosso, por conta e risco. Além de tudo, cientifica e filosoficamente, está tudo certo.

Professora Maria Angela Coelho Mirault – doutora e mestre em Comunicação e Semiótica e Signo e Significação das Mídias, pela PUC de São Paulo

03.01.2018

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Novos paradigmas

             
            Os grandes pensadores desvelam partes paradigmáticas de uma única Verdade, ainda não acessível. De tempos em tempos, somos visitados por esses seres especiais, que, além do Espaço-Tempo, vêm nos anunciar suas proposições filosóficas.
            Toda minha trajetória na pós-graduação acadêmica, se deu à luz da Fenomenologia e de seus cientistas. Pude examinar fatos vivenciados, por intermédio de pesquisas qualitativas, e, constatar a grandeza dos pensadores fenomenológicos, haja vista, atentarem-se ao fato, à vivência (única) observada, no seu momento em que acontece, sob o entendimento quântico de que ao observarmos, transformamos o fato vivenciado. Detêm-se, eles, à realidade em sua fictícia e brevíssima instantaneidade; observam-na, em suas diversas manifestações; cuidadosamente, debruçam-se para, somente, após, deduzir causas e leis que as movem. Esses são os que examinam o planeta (e, a vida) com um propósito, um mandato; não, apenas, como uma esfera qualquer ao sabor dos movimentos telúricos. Esses cintistas-filósofos são simples, parcimoniosos, sábios ao distribuírem suas conclusões sobre o mundo e as leis que regem a vida em si, a qual todos nos submetemos (ainda como mistério). Se, nos detivermos aos registros da História, conseguiremos identificar muitos deles que, ao longo das Eras, transformaram paradigmas anteriores e institucionalizados, culturalmente. Sem contradita, suas ideias vão alcançando, pouco a pouco. Minorias silenciosas – talvez mais angustiada e cavucadora de conceitos e empreendedorismo para avançar – vão somando-se e expandindo-se para outras, que, pelas bordas do ecossistema cultural, vão aceitando e assumindo o “novo paradigma”. E, assim, vamos prosseguindo para estágios cada vez mais equilibrados e coerentes com a Verdade, como categórico universal. Piaget chamaria esse estado de mudança de “acomodação majorante”, porque se equaliza em patamar paradigmático mais elaborado do pensamento humano.
            O psicanalista e filósofo, Bert Hellinger, acabou de completar 92 anos, em plena atividade, difundindo suas ideias pelo mundo.  Esse filósofo alemão contemporâneo, não para de pensar, arguir e exprimir seu rico e valioso pensamento a respeito dessa realidade, na qual estamos, todos, sem exceção, inseridos. Ético com suas formulações, ele ainda revê seus conceitos, e, não dá por fim seus experimentos e vivências, de onde abstrai suas deduções. Abraçando, com humildade, constatações de outras áreas e outras ciências, caminha e aponta novo paradigma nesse patamar majorante a respeito da vida, suas leis, com alcance a todos nós.
            Hellinger, que já atuava com os sistemas familiares, em sua prática terapêutica, observando e deduzindo suas Leis Maiores, propõem a existência de três Leis - as quais, denomina por Ordem do Amor - a nos reger os destinos, todos vinculados, inexoravelmente, a serviço de uma Força Maior. Afirma, assim, que, todos necessitamos de pertencer a um único lugar que é nosso; todos devemos respeitar uma hierarquia - que não pode nem deve ser quebrada – e, que, todos necessitamos movermo-nos, sob a lei do equilíbrio, que nada mais é, do que o bom tomar e o bom receber.  Segundo suas postulações, essas três Ordens estariam por trás de todos os vínculos e envolvimentos familiares, organizacionais; quer no micro, ou macro sistema sócio-político, que só a Fenomenologia seria capaz de desvendar. Com seu paradigma inovador, nos apresenta uma proposta de reorganização diante do mundo. Pertencer ao meu lugar. Respeitar quem veio antes de mim. Dar e receber com equidade. Seria tão impossível assim, acompanhar, observar em nós, o que propõe? Estou no meu lugar? Reconheço a primazia dos que vieram antes? Sou capaz de dar e receber com equidade? Pontos a refletir nessa nova ciência, novo jeito de pensar o humano e seus inter-relacionamentos. Uma descoberta a fazer!

Maria Angela Coelho Mirault
Doutora e Mestre em Comunicação pela PUC de São Paulo
C. Grande, 29/11/2017

https:mamirault.blogspot.com
Publicado em 02/12/2002, no jornal Correio do Estado, Campo Grande, MS

terça-feira, 22 de agosto de 2017

“Cota petista...cota petista...cota petista”



Por acaso é isso uma manifestação xenófoba, ou, uma constatação? Eis a questão, nesse mundo de denuncismo em que vivemos. O governo brasileiro que deu início a segregação entre negros e brancos (sic), em pleno século XXI, foi o governo petista do Sr. Luis Inácio da Silva. Inventou o negrismo e o pobrismo. O intento dos criadores do regime de cotas era o de promover o resgate da desigualdade entre nós, e, reparar as injustiças do passado.  Ao trazer a tona, uma abominável luta secular de segregação racial, ao classificar brasileiros, pela cor da pele, e, não pela “cor” do bolso, de sua origem emigratória, o governo petista valeu-se da mesma ideologia fascista klukluscaniana que, hoje, subjaz os conceitos e pronunciamentos do governo Trump, nos EUA. Ao privilegiar descendentes negros, pardos (o que é ser pardo?), em desfavor dos brancos (o que é ser branco, no Brasil?), esses separatistas, dotaram-nos de uma culpa, uma subserviência descabida. Perigosa. Mesquinha. Abominável.
Vivíamos como brasileiros cafusos, mestiços, honrados pela miscigenação até que os ilustres ideólogos do “Partido” decidiram lançar-nos uns contra os outros. Ausentam-se da análise de que, ao privilegiar uns, segregam outros, e, justificam sua decisão em Lei, sem considerarem que nem negros, nem brancos, nem mestiços são minorias. Minorias, em uma sociedade democrática, são as pessoas; o indivíduo, para o  qual, o artigo 5º. da Constituição assegura a igualdade plena de direitos. Desse modo, o verdadeiro defensor da minoria é aquele que defende a liberdade individual de cada um e de todos, sem considerar como prioritário suas diferenças de “raça” (inexistente na Biologia, mas, uma construção social), sexo, credo, classe social. Evidentemente, que, a lei que originou essa segregação é absolutamente anacrônica e discriminatória. Sou educadora, nunca avaliei meus educandos pela cor da pele, classe, ou, credo. Avalio-os pelo crescimento de si mesmos, individualmente, sem comparações, isso, das favelas do Rio de Janeiro (aonde iniciei a docência) às universidades, em cursos de graduações e pós-graduações.
Os defensores da “causa” trazem como argumento rançoso, malcheiroso, do caráter de reparação de uma injustiça com o passado dos povos africanos. Desconsideram que, hoje, não temos africanos, entre nós. Somos descendentes de judeus, índios, emigrantes europeus, asiático; todos, de um passado colonizado por Portugal. Somos uma nação de indivíduos multirraciais e multiculturais, mas, somos, antes de qualquer rotulagem, brasileiros. Não merecemos o privilégio e cotistas, muito menos o desmerecimento por não o sermos.
A polêmica gerada, nas redes sociais, a respeito da “cor” da nova miss Brasil, difundiu uma torrente de ódio de um país segregado. Não se pode mais emitir opiniões e comparações entre a beleza da mulher brasileira; as mulheres “cotistas” estão acima de qualquer julgamento. Posts racistas são replicados por defensores (sic) dos direitos da “raça”, agora, privilegiada e intocável. Quem não achou merecido o resultado do concurso (que nada mais tem a ver com os concursos oficiais do passado, e, hoje, são produtos de marketing) são taxados e (pasme) denunciados de “racistas”. Lamentável, pois, dentre outras aberrações, a isso, também devemos ao PT e aos xiitas do partido, ou seus colonizados simpatizantes. Não percebem, os “delegados” do Grande Irmão que essa luta preconceituosa acirra cada vez mais a segregação e a discriminação, entre irmãos, os quais, independentes e todas as diferenças, são filhos de um mesmo Brasil. De um Brasil que precisa de todos, nesse quadrante da vida nacional. Não se pode aceitar que um comentário a respeito de uma individualidade, vencedora de um concurso de marketing, seja policiado, invadido de uma “timeline”, e, venha a servir como “prova” de denúncia. Como educadora, bem antes disso tudo, afirmo que esse regime de cotas implantado pelo PT, é um acinte à sociedade. Somos todos iguais, nacionais e irmãos. Chega de denuncismo. Chega de policiamento da expressão de pensamento. Basta de confrontos entre nós. Preconceituosos e racistas são os defensores dessa causa injusta e inconstitucional.

Maria Angela Coelho Mirault – Professora doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
22.08.2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Guilhotina não


Embora haja, sim, anacrônicos-professores-doutrinadores, em todas as instâncias, com predominância para aqueles “pentecostais”sem noção, para os quais, Marx e Engels são a solução do mundo, não se pode, sequer, considerar a proposta indecente de uma “Escola sem Partido”.
Mas, eles estão fortalecidos, agendaram evento, na Câmara Municipal de Campo Grande, trouxeram a liderança dos bolsonaro-da-vida para a empreitada, com o aval da Diocese de Campo Grande (será?), que, permitiu se distribuíssem panfletos a saída de suas igrejas.
Estamos mesmo todos abobalhados com os acontecimentos atuais. São estarrecedores os fatos que nos chegam por intermédio da mídia. Orwellianizados, somos todos vistos e escaneados todo o tempo. Não há mais privacidade; tudo está irremediavelmente desvelado. Estamos nus e não há a quem recorrer. Parece que vivemos um momento em que todas as instituições estão carcomidas pela ferrugem e contaminadas pelos fungos da corrupção, da falta de moral e do predomínio dos maus costumes.
Supor que a fixação de cartazes nas escolas de Campo Grande inibirá os doutrinadores de suas pregações é um pensamento canhestro, inconcebível e ignóbil. Eles foram treinados; saberão como se rebelarem, continuando suas pregações. Em contrapartida, uma nobre profissão e a maioria de seus profissionais estarão avassalados, em guetos de espúrias delações.
Será que toda essa desordem que toma conta do país, em todos os poderes, todas as esferas, em cada repartição de governo está nos desorientando; conduzindo-nos, agora, a imposição e a aceitação dos recursos da mordaça? A guilhotina do direito sobre nossa liberdade de expressão, limpidamente expressa na Constituição?
Será que a crise de autoridade, de ordem, de credibilidade e de respeito, que nos nocauteia todos os dias, está nos ensandecendo, empurrando-nos cada vez mais para o muro da insensatez?
Será que o controle, a denúncia de uns contra os outros nos trará uma escola limpa, anódina, mais “desemburrecente” do que a que produz milhares de analfabetos funcionais?
Somos, ainda, e, graças a Deus, um país livre. É livre a manifestação do pensamento. É um direito inalienável, emitir, livremente, opiniões, ideais, sem medo de retaliação ou censura, seja de quem for. Essa liberdade é conceito fundamental do estado de direito nas democracias. Qualquer inibição desse preceito é censura e é imoral.
Direito humano protegido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos - e, pelas constituições de vários países democráticos - desde 1948, prediz que “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras" (artigo XIX).
Estabelecer rédeas seja a quem quer que seja é crime constitucional. Como é possível que uma Casa de Leis; Igrejas e alguns idiotizados defendam essa ideia, e, proponha um Seminário, em nossa cidade, para que uma discussão direcionada legitime mais uma, dentre tantas, aberração inconstitucional? Essa tentativa já se frustrou há pouco tempo. Seus autores arredaram, e, agora, voltam fortalecidos pelo esculacho geral que toma conta do país, sob a liderança do filhote bolsonariano, trabalham por uma guinada de 180 graus em nossos costumes.
Não é porque o PT avacalhou com a democracia, usurpou a Nação, conciliou-se com a política no seu sentido mais abjeto, abrigou o pior disponível e cúmplice aos seus projetos, que nossa saída será o retrocesso. Não é. Não serão eles quem nos trarão a ordem, a esperança e a bonança.
É na liberdade de consciência que se encontra nossa maior riqueza de transformação de um mundo que volta a Idade Média e quer vingança, antes da justiça; controle, antes da ação.
Como professora há décadas, livre pensadora, cidadã do mundo, cumpridora de minhas obrigações só posso lançar o meu libelo. Não a guilhotina do pensamento! Não a mordaça em minha boca! Vocês não podem induzir parte da sociedade com esse imbróglio. É justamente o contrário, quando estamos e somos livres é que conseguimos buscar soluções para nossas divergências. Sempre haverá.


Maria Angela Coelho Mirault – professora doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
10/08/2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Parem tudo...


Pela morte do bebê Artur!
Julho de 2017 terminou com uma tragédia desumana e cruel. A morte inconcebível do bebê Artur, após um mês de luta por sua vida, nesse dia 31, é o sinal de que chegamos a um limite intransponível. Escudeiro de sua mãe, amparou com seu corpo gestado  por 39 semanas, as balas que lhe seriam fatal. Balas sem dono, sem direção, sem finalidade. Inexplicáveis, indesculpáveis, inaceitáveis, disparadas por traficantes, ainda não identificados, de dentro de uma favela, no Rio de Janeiro, é, apenas, mais um dos incontáveis episódios da guerra de todo dia, travada nas ruas, becos e favelas, de um País que se dobra, diante da impunidade.
Réquiem para o bebê Artur. Que todos os sinos se dobrem pelo herói bebê Artur. Que todos parem seu cotidiano, por sua breve vida e seu destino. Que saibamos o significado de sua vinda, sua triste, breve e magistral história... diante dessa morte, na luta contra o poder incontrolável do tráfico.
Choremos e lamentemos a tragédia, mas, não deixemos de nos indignar com os fatos que levaram nosso pequeno Artur. Estamos de luto, mas, antes de tudo, precisamos aceitar o fato de que estamos sobrevivendo em estado de guerra, cujos ingredientes fatais misturam droga, impunidade, corrupção, violação de direitos, avassalamento da justiça. Despreparados e perplexos, optamos pelo ocultamento de nossas vidas, nossas almas, acovardados, entrincheirados, e, isolados. Mas, essa estratégia não está funcionando; estamos sendo dizimados. Não é novela; é realidade alucinógena que perpassa o noticiário da tevê, nos atinge o peito e a dignidade. Estagnados em pesadelos cruéis, temos tocado nossa vida, enquanto lá fora a ventania ruge, os raios caem e atingem um de nós... lá fora, um a um (por enquanto).
Quem foi Artur? Artur foi um bebê-brasileiro assassinado antes de nascer. Artur foi um brasileiro que lutou, por 30 dias, para vencer o invencível. Artur foi o escudeiro-mor da vida de sua mãe. Artur tornou-se um signo!  É preciso que se toquem todas as trombetas e que se pare tudo, agora. Fechemos as fronteiras. Ponhamos os cachorros nas ruas. P-o-l-í-c-i-a!  J-u-s-t-i-ç-a!
Uma vida é o bem mais preciso da Terra. É a riqueza, anunciada há mais de dois mil anos, como a que não enferruja e as traças não consomem. Mas, uma arma pode ceifá-la em poucos segundos, impedi-la de vicejar, florescer e dar frutos; vidas destruídas e reviradas.
Artur, porém, foi o bebê que morreu horas antes de outro “ bebê” – abastado, malcriado, que tudo teve e usufruiu, proveniente do dinheiro  e do poder de sua casta – ser retirado de dentro de uma prisão, pelo fórceps autoritário do poder de sua mãe, acima das leis, da justiça, das evidências, de tudo que uma civilização inteira construiu ao longo dos séculos.  Esse “bebê-marginal”, de 37 anos, que fora preso com 130 quilos de maconha, centenas de munições de fuzil e uma pistola nove milímetros, agora, desfruta a correção de um Spa de luxo.
 Estamos nos acostumando aos lixos-humanoides, “acima de nós”; estamos nos deixando contaminar por essa espécie (sistêmica) de seres que tudo podem; dos chefes do tráfico aos chefes de repartições (sejam elas quais sejam). Se permitirmos, se não nos indignarmos, se não conseguirmos enxergar o paradoxo do cotidiano anárquico que nos afeta, e explode em todos os lugares e circunstâncias - na bala do mesmo tráfico que assassinou Artur e no ato que libertou o filho-da-mãe- autoritária-autoridade, estaremos mesmo entrincheirados e acovardados, em nosso isolamento inútil.
No céu, portas se abriram e trombetas tocaram para receber Artur, o pequeno herói que escudou sua mãe, livrando-a da morte. Na Terra - no brasil- apequenado-nosso-de-todo-dia - uma porta de cadeia se abriu, pelo poder destemido e assombroso de  uma desprezível mãe, que, vergonhosamente, ao arrepio da Justiça e da Lei, de lá tirou seu lixo, proveniente de uma sociedade de castas, que nos agride, surpreende e envergonha. Choremos a partida do pequeno herói brasileiro, repudiemos, veementemente, a soltura do marginal.

Maria Angela Coelho Mirault – professora doutora em Comunicação e Smiótica pela PUC de São Paulo

31/07/2017

sábado, 22 de julho de 2017

O PMDB do PT: toma que o filho é teu


Seguinte. O PMDB, que hoje governa esse Brasil acovardado, esculachado, meliante e marginal foi gestado e cevado durante a ditadura dos governos militares, no poder, desde o golpe de 1964. Ponto. Tancredo era o personagem escolhido e acolhido, como forma de conciliar (sic) os clamores das “diretas-já” (1984) com os interesses do regime. Ungido para suceder João Figueiredo, presidir a fajuta transição democrática e uma possível governabilidade civil, Neves foi eleito, indiretamente, com 480 votos contra 180, por um Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985, para exercer um mandato presidencial de seis anos. Contudo, recordemos, na véspera de sua posse, agendada para 15 de março, teve o “piripaque” que o “levaria” à morte por uma oportuna diverticulite (?).
Diante da maldita dúvida que chegou a pairar entre políticos experientes (Sarney, Fragelli, Marco Maciel, Dornelles, sobrinho de Tancredo, e Antonio Carlos Magalhães) - ainda no hospital - Leônidas Pires, o general indicado (?), por Tancredo, ao Ministério do Exército, amparando-se na Constituição de 1967, que, em seu Artigo 76 prescrevia: “Se, decorridos dez dias da data fixada para a posse, o presidente ou o vice-presidente, salvo motivo de força maior, não tiver assumido o cargo, este será declarado vago pelo Congresso Nacional”, lacrou: “Sarney toma posse!”.
Há controvérsia histórica, com relação à legitimidade do nefasto José Ribamar (ex-PDS) e sua condição de 31º. Presidente do Brasil (1985-1990). Caso a opção fosse outra, tomaria posse o peemedebista Ulysses Guimarães, presidente do Congresso, e, posteriormente, a escolha de outra figura política para a missão. Se seria bom ou não, o fato é que a gente engoliu a “morte natural” do não empossado. A gente aceitou, de imediato, a posse de Ribamar. E, cá estamos nós, às voltas com o mesmo PMDB que nunca deixou de governar; fosse às claras, fosse debaixo de interpretações dúbias, ou, debaixo dos panos do nosso famigerado “jeitinho brasileiro”. Aliás, eles não governaram, ou, governam, só, agora. Eles têm reinado.
Agora, com Temer e sua trupe, o PMDB se mantém no poder por conta de acordos de bastidores - tão vilipendiados quanto os do passado. Sem o PMDB, nos bastidores, o PT não teria levado a Presidência ao patamar que chegou.  Dito isso, é preciso considerar - antes que a loucura se instale em todas as mentes – Temer (o Sarney de hoje) é uma criação perversa do PT. Foi cevado durante os governos do PT. Aí, nos parecem esdrúxulos os movimentos midiáticos, e sociais, dos convertidos ao petismo, em desfavor de Temer; seu (mal) governo; suas (más) escolhas; seus (imorais) acordos no Congresso; suas (más) medidas para “consertar” o país.
Se não foi o PT quem inventou o PMDB, seus maus hábitos e seus maus políticos, foi o Partido quem os legitimou. Ao PT atribuamos a Reforma Trabalhista; ao PT atribuamos o aumento dos impostos; ao PT atribuamos o aumento dos combustíveis; ao PT atribuamos os milhões de desempregados; ao PT atribuamos à violência e a todo tipo de crime que se comete nesse país; a descrença e a desesperança que nos assola o vigor patriótico. Não dá pra apartar Temer do PT nem o PT de Temer.
Tenhamos em mente, uma consideração: quem nos governa é o PMDB do PT. Temer é o PMDB que se aco-var-dou com os militares, lá atrás, manteve suas figuras grotescas na política brasileira e nos bastidores do poder; enfiou sarneys, renans, jucás goela a baixo; engoliu (pra depois, cuspir) o partido que o acolheu na vice-presidência. Temer foi eleito pelos eleitores do PT, seus simpatizantes e convertidos. Foram eles quem puseram o jabuti no poste e “o cara” no jogo-democrático (sic), voto a voto, urna á urna. Portanto, estamos sob a batuta do maestro que, no momento, lidera o PMDB do PT. Dancemos, pois, enquanto a música toca e o naufrágio ainda não afundou totalmente o nosso Titanic. E, salvem-se quem puder.

Maria Angela Coelho Mirault – Professora doutora em Comnicação e Semiótica, pela PUC de São Paulo

22/07/2017

domingo, 16 de julho de 2017

... Se nada der certo


Há poucos mais de um mês, jovens de escola particular de ensino médio, no Rio Grande do Sul, fizeram uma zoada com o tema. Fantasiando-se de faxineiros, entregadores de pizzas, arrumadeiras, cozinheiras, visavam, segundo eles, parodiar o arrocho do Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) - uma praga do Egito, sequer imaginada por Moisés - que, ao lado de outras, está levando nosso futuro ao caos (sem mencionar o EAD: Ensino à Distância, pelo qual, um diploma presencial vale tanto quanto um diploma de cursos-delivery). Pela brincadeira, foram trucidados pelas redes sociais. Oh! Como puderam gozar de profissões “tão nobres”! Hipócritas! Hipócritas! Hipócritas! Por acaso, as profissões arroladas encontram-se no patamar do sucesso profissional? Exerceriam esses profissionais “criticados” as respectivas atividades por gosto e vocação? Ora bolas... Quem quer pegar em uma vassoura, arear uma panela, enfrentar um fogão; trabalhar em telemarketing ...por vocação?
Recentemente, ouvi o relato de um engenheiro, altamente qualificado na área de tecnologia avançada em som e imagem, exercendo a atividade de vendedor em uma prestigiada loja de um shopping, no Rio de Janeiro. Apresentou registros dos “seus bicos como engenheiro” (eu disse: bico como engenheiro), absolutamente convincentes. Ali, quase se justificando: “aonde pinga não seca”, referiu-se a certo colega, odontólogo, trabalhando como demonstrador de produtos em outra loja do mesmo shopping.  No saguão de um aeroporto, ouvi outro relato sobre o mesmo tema: a desaprovação de um pai, pela intenção da filha em cursar medicina.  Como diretor de hospital, revelou a esposa, tinha pilhas de currículos de gente muito bem preparada (inclusive, com pós-graduação) para um emprego (pasme!) de 900 reais!
Não, não se trata de “se” nada der certo. Nada está dando certo. Nada! E, isso é vida real, no Brasil. Com mais de 14 milhões de desempregados, já de muito, o país tem perdido muita mão de obra qualificada, obrigada a trocar sua vocação, pelo que lhe dá o pão, Há um imenso exército de reserva –“over quallity” - que, por possuírem qualificações, acima do que o mercado quer, estão, nesse momento, “no service”. E, sabe o que o mercado quer? Quer “commodities” (produtos de baixo valor agregado); pouca coisa; manés-flexíveis; moldáveis; adaptáveis a sua demanda. Quem estudou muito, acreditou nas regras do passado se ferrou. O que tem de gente de nível superior atrás do carrinho-rosa-pink; do shake-herba-qualquer-coisa; abrindo butiques (em casa mesmo), filiais da “25 de março”, “santa-efigênia”; “alfândega”, “pero ruan”; farmacêutico-balconista (é comum vê-los no caixa); fisioterapeuta-massagista; nutricionista-chef–cozinheiro; jornalista-assessor de político; psicólogo-recepcionista, bacharel em direito-faxineiro; engenheiro-motorista, não está no gibi.
Como educadora, lamento constatar que os jovens sul-rio-grandenses - mesmo sem se darem conta - não estavam brincando. Sairão do colegial, quiçá, entrarão para uma faculdade. Muito poucos farão sequer os cursos vocacionados; matricular-se-ão, pelo pódio do Enem, em cursos, para os quais, jamais tiveram a menor vocação.
Como educadora, infelizmente, preconizo: não é que “pode” dar errado; já deu! E, assim sendo, nossos alegres, criativos e alienados jovens sul-rio-grandenses, que pensavam apenas estar se travestindo de fracasso, embora não se tenham dado conta, registraram uma das fraturas expostas de um Brasil que já está existindo, debaixo dos nossos narizes, mas, que não queremos ver. Talvez, até, estejam eles, a um passo desse desequilíbrio avassalador.  Ocorre, como certo, e, grave, que poderá não haver balcões e vassouras para todos. E, assim... se nada der certo, tornar-se-ão, também,  mais um “over quallity - no service”.


Maria Angela Coelho Mirault – professora doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo
Publicado em 21.07.207, Correio do Estado, Campo Grande, MS